
A tigela de pho a 150 rublos: o novo mapa do turismo russo no Sudeste Asiático
Com preços inferiores aos da Turquia e uma logística simplificada, o Vietname recebeu 742 mil turistas russos no primeiro semestre, ultrapassando os EUA e aproximando-se de 1,5 milhões até ao final do ano.
Num restaurante de rua em Nha Trang, um viajante russo inclina-se sobre uma tigela fumegante de pho bo. O caldo perfumado, as ervas frescas e a carne tenra custam o equivalente a 150 rublos — uma ninharia, anotou no seu blogue, comparada com a inflação que corrói os orçamentos de férias na Europa ou na Turquia. A cena, descrita pelo bloguista russo que assina “Letaem Sami”, condensa uma transformação silenciosa: o Vietname, outrora um destino exótico e distante, tornou-se o refúgio de uma classe média russa que redesenha o seu mapa de lazer. O voo direto de Moscovo para a costa centro-vietnamita pode ser encontrado por 8 a 15 mil rublos, e a hospitalidade local, sublinha o mesmo relato, dispensa preocupações com a segurança.
Os números confirmam a intuição do bloguista. Nos primeiros seis meses de 2026, o Vietname recebeu 742.679 turistas russos, um salto de 2,8 vezes face ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do organismo nacional de turismo vietnamita compilados pela Associação de Operadores Turísticos da Rússia (ATOR). A federação tornou-se assim o terceiro maior emissor de visitantes para o país, atrás apenas da China (2,69 milhões) e da Coreia do Sul (2,16 milhões), e ultrapassou mercados tradicionais como os Estados Unidos, o Japão e a Austrália. O total de chegadas internacionais ao Vietname atingiu 12,25 milhões, uma subida de 14,9% em termos homólogos, com junho a registar 1,68 milhões de entradas. A partir de 22 de junho, um novo regime de vistos eletrónicos, válidos por 60 dias e com exigências de seguro simplificadas, veio lubrificar ainda mais a engrenagem.
Na perspetiva de Moscovo, a vaga vietnamita é o subproduto de um realinhamento mais vasto. A incerteza no Médio Oriente e o arrefecimento da procura interna russa — o turismo doméstico arrancou timidamente em junho, com o pico a deslocar-se para julho — empurraram os viajantes para as praias asiáticas. Os operadores turísticos russos registaram em maio um aumento de 777% na procura de pacotes para o Vietname, impulsionado pela expansão das rotas aéreas. Em julho, o país ocupava o quarto lugar nas vendas de viagens organizadas a partir da Rússia, com uma quota de 7,8%, superior à da Tailândia (4,7%) e da China (4,3%). “Mais barato que a Turquia, mais colorido que a Tailândia”, resumiu o bloguista, numa frase que analistas em Moscovo citam como síntese do novo imaginário de férias.
O contraste com a vizinha Myanmar é eloqüente. Enquanto as praias de Da Nang e Phu Quoc se preparam para receber voos diretos adicionais no outono, o país governado por uma junta militar tenta reanimar um setor turístico que definhou desde o golpe de 2021. Em 2024, Myanmar recebeu 973 mil visitantes estrangeiros, longe do pico de 4,5 milhões em 2015, e as autoridades esperam atingir 1,8 milhões este ano, apostando sobretudo nos mercados chinês e tailandês. A guerra civil já provocou mais de 100 mil mortos e milhões de deslocados, e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) debate-se com a reintegração do regime de Naypyitaw. No passado fim de semana, os ministros dos Negócios Estrangeiros do bloco reuniram-se em Banguecoque com o homólogo birmanês, numa tentativa de reativar o diálogo, enquanto o antigo chefe da junta, Min Aung Hlaing, visitava o Laos na sua primeira deslocação a um Estado-membro desde que assumiu um cargo civil.
No final da refeição, o viajante russo fecha o portátil e observa o mar da China Meridional. A brisa é morna, o hotel com piscina no terraço custou uma fração do que pagaria em Antália. A alguns fusos horários dali, as salas de reunião da ASEAN ecoam com as palavras “reconciliação” e “consenso”, enquanto as areias de Ngapali permanecem vazias. O pho já não é apenas um prato típico: é a unidade de medida de um novo nomadismo.
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