
A odisseia de Nolan: entre o épico e a polémica, o filme chega aos cinemas
Com um elenco estelar e uma estreia global que passou por Mumbai, a adaptação de Homero por Christopher Nolan já nasce entre elogios da crítica e controvérsias nas redes.
No alto de um esporão rochoso sobre o mar de Favignana, o Castelo de Santa Caterina transformou-se no palácio real de Ítaca. Tom Holland, no papel de Telémaco, ensaiava uma cena de combate sob o olhar de Christopher Nolan, enquanto uma câmara IMAX de 130 quilos exigia seis pessoas para se mover sobre o terreno pedregoso. O vento e a água, recordaria depois Zendaya, eram tão intensos na Islândia que lhe congelavam os lábios e impediam a articulação dos diálogos. Foram 91 dias de rodagem em seis países — de Marrocos à Escócia, passando pela Grécia e pelos estúdios da Universal — para dar corpo a um poema com quase três milénios.
A estreia mundial do filme, a 17 de julho, foi antecedida por uma digressão promocional que fez escala em Mumbai, a primeira vez que uma obra de Nolan tem uma antestreia dedicada na Índia. Tom Holland acenou aos fotógrafos à chegada ao aeroporto; Matt Damon e o realizador juntaram-se depois no hotel Taj Mahal Palace. Perante uma plateia que descreveu como “uma das mais entusiásticas e conhecedoras do mundo”, Nolan agradeceu o acolhimento e sublinhou a emoção de regressar a um país onde já filmara em Jodhpur e na própria Mumbai. As primeiras reações da crítica, divulgadas nas redes sociais, foram maioritariamente positivas: para o jornalista Simon Thompson, Damon oferece “uma das melhores interpretações da sua carreira”, enquanto a feiticeira Circe, interpretada por Samantha Morton, terá arrancado uma ovação de pé da equipa, algo que não acontecia num set de Nolan desde Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas.
A adaptação da Odisseia reacendeu também um debate cultural. Nas plataformas digitais, uma campanha de rejeição acusou o filme de “lixo woke” por escalar uma atriz negra, Lupita Nyong’o, como Helena de Troia, e o ator trans Elliot Page como um jovem guerreiro grego. Nolan, que não possui smartphone e se mantém alheio às redes, respondeu em entrevista ao Telegraph que essas conversas “são sempre irrelevantes, porque ninguém que as tem sabe o que o filme realmente é”. Sobre as críticas ao guarda-roupa e aos diálogos modernos, o realizador defendeu uma abordagem “terrena e acessível”, afastando-se do que considera “preconceito cultural” em relação ao mundo antigo. Na imprensa europeia, a discussão estendeu-se ao próprio poema homérico: a Vox recordou que a Odisseia é “divertida, empolgante e sexy”, e que o seu herói trapaceiro, Ulisses, está na origem de arquétipos que vão de Ferris Bueller a Don Draper.
Com um orçamento estimado em 250 milhões de dólares, o filme é o primeiro a ser rodado inteiramente com câmaras IMAX, utilizando tecnologia de película recentemente desenvolvida. A expectativa comercial é elevada, mas Nolan, fiel à sua defesa da experiência em sala, afirmou à Associated Press que “o público dirá o que o filme é”. Em Paris, o cineasta aproveitou para comentar o papel da inteligência artificial no cinema: “São algoritmos de amostragem. Trituram tudo e cospem de volta, mas, a menos que lhes dês algo novo, não podem criar nada”. A desconfiança do público jovem em relação à IA, notou, contrasta com o entusiasmo de Wall Street.
Há mais de vinte anos, quando esteve brevemente ligado à realização de Troia, Nolan guardou uma imagem: o cavalo de madeira semienterrado na areia, prestes a ser destruído pelas ondas. Essa visão, que nunca o abandonou, é agora uma das sequências de um filme que, tal como o seu herói, procura o caminho de regresso a casa — e ao espectador.
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.30 | critical |
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