
A porta fechada do abrigo: um milhão de mulheres perdem a rede de apoio vital
Relatório da ONU Mulheres revela que cortes na ajuda internacional, combinados com a crise da dívida, estão a desmantelar organizações de mulheres em 52 países, deixando sobreviventes de violência sem assistência.
Ela caminhou durante horas, com o filho nos braços, até à porta do abrigo que lhe tinham indicado. Encontrou-a fechada. A placa na entrada ainda anunciava um espaço seguro para mulheres vítimas de violência, mas o financiamento que mantinha as luzes acesas e as conselheiras a postos desaparecera. A cena, relatada por trabalhadoras humanitárias em países como a República Democrática do Congo e o Haiti, multiplica-se desde janeiro de 2025. Um novo relatório da ONU Mulheres, baseado em respostas de 855 organizações em 52 países afetados por crises e conflitos, estima que pelo menos um milhão de mulheres e raparigas perderam o acesso a serviços essenciais. A hemorragia de fundos — impulsionada pelos cortes da administração Trump e pela retração de outros doadores europeus — está a levar duas em cada cinco destas organizações a prever o encerramento, temporário ou definitivo, no próximo ano.
As mulheres que mantêm estas estruturas de pé estão a pagar com o próprio corpo e rendimento. Sessenta e cinco por cento das organizações dirigidas por mulheres afirmam que as suas equipas trabalham sem salário para não interromper o atendimento. Quase metade relata um aumento do esgotamento profissional; 88% dizem que a saúde mental das mulheres e raparigas que servem está a deteriorar-se. Sofia Calltorp, chefe de ação humanitária da ONU Mulheres, alertou: “Cada dólar retirado das organizações de mulheres é um dólar retirado às sobreviventes de violência sexual, às mães deslocadas, às raparigas forçadas a abandonar a escola e às comunidades que lutam para sobreviver.” A violência sexual relacionada com conflitos duplicou em 2025, precisamente quando os sistemas de proteção se desfazem. Oitenta e seis por cento das organizações reportam um aumento da violência de género nas comunidades onde atuam, e 62% afirmam que os espaços seguros para mulheres e raparigas foram reduzidos ou simplesmente desapareceram.
Este desmantelamento não ocorre num vazio financeiro. Enquanto as organizações de mulheres fecham portas, um estudo paralelo da Unesco revela que, em 2025, 113 países em desenvolvimento gastaram mais com o serviço da dívida externa do que com a educação. Na África subsariana, a despesa com a dívida foi 3,6 vezes superior à destinada ao ensino. A ajuda internacional à educação caiu 21% desde 2023 e poderá recuar até 30% em 2027. Para observadores em Lisboa e no Rio de Janeiro, o cenário ecoa de forma particularmente aguda nos países africanos de língua oficial portuguesa, onde a combinação de endividamento crónico e quebra de donativos internacionais fragiliza tanto as escolas como as redes de proteção às mulheres. A suspensão de programas de liderança feminina e de promoção da igualdade de género — já interrompidos por uma em cada cinco organizações — insere-se, segundo a ONU Mulheres, num recuo global dos direitos das mulheres e das raparigas.
As consequências são já visíveis nas comunidades mais remotas. Sessenta e três por cento das organizações reduziram serviços nessas áreas, onde não há alternativas. Metade criou listas de espera ou começou a recusar novos pedidos de ajuda. A pobreza entre as mulheres assistidas aumentou em 92% dos casos; o abandono escolar de raparigas subiu em 82%. A imagem que fica é a de uma sala de aula que se esvazia lentamente, ou a de uma conselheira que continua a atender ao telefone, sem salário, porque sabe que do outro lado da linha está uma mulher que não tem mais ninguém a quem recorrer. A porta do abrigo pode ter fechado, mas a memória do que ali se protegia — uma ideia de dignidade e de futuro — persiste, frágil, nas mãos de quem se recusa a largá-la.
| Imprensa árabe Levante-Magrebe | −0.80 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa indiana e sul-asiática | 0.00 | neutral |
| Imprensa latino-americana | −0.20 | neutral |
The UN Women report denounces US cuts as the main cause of the humanitarian crisis, accusing the Trump administration of sacrificing women for military spending.
It selects and foregrounds the role of the United States, omitting the context of cuts from other donors, to create a clear political target.
It does not mention that cuts come from multiple donor countries, not just the US.
The numbers speak for themselves: staff at women's organizations work without pay and burnout is widespread, but no culprit is sought.
It reduces political complexity to operational indicators, focusing on internal consequences rather than causes.
It omits the context of US cuts and rising conflicts, focusing only on immediate staff effects.
The humanitarian crisis directly affects women and organizations: survival is at risk, and the context of armed conflicts worsens the situation.
It uses the language of survival and imminent closure to create empathy and urgency, without assigning specific blame.
It does not mention the role of the US or other donors in the cuts, maintaining a general tone.
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