
A identidade em duas malas: o cansaço de performar a própria vida
Narrativas pessoais de vários continentes mostram como a pressão por definição externa — seja em aplicativos, posses ou relações — está a gerar uma onda silenciosa de introspeção e recusa.
A mulher que percorre a Costa Oeste americana já não entra em lojas sem rumo. Desfez-se de uma casa de três quartos, de uma manteigueira em forma de baleia e de centenas de livros que um dia sonhou enfileirar numa biblioteca própria. Hoje, cabe em duas malas e num sedã Kia Forte. Quando uma amiga lhe oferece uma pilha de romances, sente gratidão e sufoco: já não há espaço — nem desejo — para acumular mais do que experiências.
O gesto não é isolado. Numa sala de argumentistas em Sydney, uma roteirista paga para partilhar a intimidade esconde a morte recente da irmã. Recusa revelar que a irmã escrevia sobre Sylvia Plath ou que restaurava o motor do seu Volkswagen. Em Acra, outra mulher cansa-se de ouvir “quando te arranjas?”, enquanto desativa aplicativos de encontros que transformam a sedução num cansativo exercício de deslizar perfis. A fadiga tem rostos e geografias distintas, mas um traço comum: a recusa em ser definida de fora.
Na paisagem digital, o cansaço das aplicações de namoro é um sintoma. O psicólogo Paul Eastwick, da Universidade da Califórnia, descreve a “máquina de avaliar produtos” em que se tornaram os encontros: três a seis segundos para decidir um destino amoroso, conversas repetitivas que raramente desembocam em intimidade. Tinder, Bumble e congéneres criaram o que o sociólogo Anthony Elliott chama de “minimalismo de compromisso e máximo de prazer imediato”. Mas também geraram, como nota a comissária de segurança digital australiana, uma legião de três milhões de utilizadores exaustos no país. Em Portugal e no Brasil, onde os aplicativos dominam a paquera, a sensação de esgotamento ecoa nos consultórios de psicólogos e nas redes sociais.
Não se trata apenas de amor romântico. O vício por pessoas tóxicas, que uma ganense descreve como “transformar alguém na nossa heroína pessoal”, é outra face da mesma dependência – a de esperar que o outro valide o que somos. Nas redações de televisão, a roteirista que se cala recorda a irmã que a desafiaria a não edulcorar a narrativa. E a mulher que se livrou da manteigueira de baleia percebe, com anos de atraso, que os objetos eram provas de uma identidade que julgava precisar de comprovativos externos.
Na estrada, o que se coleciona são amanheceres, amizades e a súbita ausência de necessidade de um inventário. Voltar atrás já não é uma opção, e a pergunta ecoa de Acra a Lisboa, de Sydney a São Paulo: quantas malas são precisas para carregar uma vida? Para um número crescente de pessoas, a resposta cabe no porta-bagagens – e no alívio de não ter de provar nada.
| Imprensa atlântica / anglosfera | 0.00 | neutral |
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| Imprensa africana subsaariana | −0.20 | neutral |
| Imprensa europeia continental | +0.40 | aligned |
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