
UE e China lançam consultas comerciais com prazo até outubro para travar défice de 360 mil milhões de euros
Bruxelas e Pequim criam quatro grupos de trabalho e um mecanismo de monitorização de fluxos comerciais, enquanto o comissário europeu alerta que o status quo é 'insustentável'.
A União Europeia e a China acordaram na segunda-feira, em Bruxelas, iniciar consultas formais sobre comércio e investimento, com o objetivo de alcançar 'resultados tangíveis' até outubro. O anúncio, materializado no primeiro comunicado conjunto desde 2019, surge num momento em que o défice comercial bilateral atingiu 360 mil milhões de euros em 2025, um valor que a Comissão Europeia classifica como insustentável. O comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, recebeu o ministro chinês Wang Wentao e sublinhou que 'o status quo não é uma opção', dando início a um processo negocial que deverá evitar uma escalada de medidas protecionistas.
O mecanismo acordado estrutura-se em quatro grupos de trabalho dedicados ao reequilíbrio do comércio e investimento, controlo de exportações, direitos de propriedade intelectual e reforma da Organização Mundial do Comércio. Será ainda criada uma plataforma conjunta de monitorização dos fluxos comerciais, com zonas de alerta 'âmbar' e 'vermelha' que, se ultrapassadas, desencadeiam conversações políticas imediatas. Do lado chinês, Wang Wentao assegurou que os atuais controlos sobre terras raras e ímanes permanentes não perturbarão as cadeias de abastecimento europeias, um gesto que Bruxelas recebeu como sinal de abertura, embora mantenha a exigência de maior simplificação dos processos de licenciamento para empresas da UE.
A iniciativa reflete uma mudança de tom na relação bilateral. Durante anos, a UE descreveu a China simultaneamente como parceira, concorrente e rival sistémica, mas a perceção em Bruxelas consolidou-se: a concorrência é vista como desleal e a parceria, esvaziada. O fenómeno apelidado de 'China Shock 2.0' traduz-se numa ameaça à base industrial europeia que vai muito além dos veículos elétricos. As tarifas impostas em 2024 não travaram a importação de automóveis chineses, e fontes comunitárias admitem que no outono poderão ser discutidas quotas para híbridos e produtos químicos. Na perspetiva de capitais como Berlim, onde a indústria automóvel enfrenta uma quebra de um terço nas exportações para a China, o diálogo é essencial, mas exige resultados concretos.
O próximo encontro ministerial está agendado para outubro, em Pequim, coincidindo com uma cimeira de líderes da UE a 15 de outubro e com o termo da suspensão chinesa de controlos à exportação de minerais críticos. Šefčovič advertiu que, sem progressos tangíveis até lá, o bloco será forçado a agir. Em Lisboa, o governo português acompanha as negociações com a preocupação de preservar o acesso ao mercado chinês para setores exportadores, enquanto em Brasília o desenrolar do contencioso é monitorizado pelo potencial impacto nas cadeias globais de abastecimento e na relação comercial do Brasil com o seu principal parceiro, a China.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Europa prepara-se para um choque comercial com a China, acusada de inundar o mercado com bens baratos graças a subsídios estatais e uma moeda artificialmente fraca. Bruxelas vê setores inteiros em risco e fixa outubro como prazo para resultados tangíveis, com pressão crescente por medidas defensivas. A narrativa dominante retrata Pequim não mais como parceiro, mas como rival sistémico.
Pequim participa em conversações comerciais intensas e construtivas com Bruxelas, concordando em estabelecer um mecanismo conjunto de monitorização dos fluxos comerciais para aliviar tensões. A União Europeia fixa outubro como prazo para resultados concretos, mas a disponibilidade chinesa para partilhar dados e gerir picos de importações sinaliza uma abordagem pragmática para evitar uma guerra tarifária.
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