
Trump acusa Meloni de 'implorar' por foto e escala tensão com Itália após recusa de apoio militar no Irão
Declarações do presidente dos EUA geraram cancelamento de visita diplomática e expuseram fissuras na aliança transatlântica, enquanto Roma reafirma soberania e rejeita subordinação.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, lhe “implorou” por uma fotografia durante a cimeira do G7 em Évian-les-Bains, na semana passada, e que só acedeu por “pena”. Meloni classificou a história como “totalmente inventada” e sublinhou: “A Itália e eu nunca imploramos”. A troca de acusações teve consequências diplomáticas imediatas: o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, cancelou uma viagem prevista a Miami e um fórum empresarial bilateral foi suspenso. Trump reagiu com novas críticas a partir do Salão Oval, acusando a Itália de se ter “comportado muito mal” e ameaçou que Washington também pode dizer “não” aos aliados.
Na perspetiva de Washington, a irritação presidencial radica na recusa de Roma em autorizar a utilização de pistas de aterragem e descolagem italianas durante a guerra contra o Irão, decisão que Trump descreveu como uma falta de reciprocidade face aos “biliões de dólares” gastos pelos EUA na defesa da NATO. O presidente norte-americano alegou ainda que Meloni procurava a fotografia para recuperar popularidade interna, após a derrota num referendo sobre a reforma da justiça em março. Do lado italiano, o governo invoca constrangimentos constitucionais e o carácter não-NATO do conflito para justificar a negativa. Tajani declarou que a Itália é um “aliado leal, mas não súbdito de ninguém” e que a relação transatlântica deve ser gerida “com maturidade”, anunciando que comparecerá à celebração dos 250 anos da independência dos EUA na embaixada em Roma, “de cabeça erguida”.
A crispação expõe um distanciamento progressivo entre os dois líderes, outrora próximos. Meloni foi a única chefe de governo europeia a assistir à tomada de posse de Trump em 2025 e recebeu elogios públicos do magnata, que promoveu a versão inglesa da sua autobiografia. Contudo, fontes diplomáticas europeias citadas pela Reuters indicam que, durante a própria cimeira do G7, a primeira-ministra italiana desafiou abertamente Trump em vários pontos e defendeu a Europa perante as queixas de abandono pelos aliados ocidentais. Observadores em Roma notam que a popularidade de Meloni, que enfrenta eleições em 2027, é afetada pela associação a um presidente visto negativamente pela maioria dos italianos, e que o referendo de março funcionou como barómetro desse mal-estar. A rutura tornou-se visível quando Meloni classificou como “inaceitável” um ataque de Trump ao Papa Leão XIV, em abril, e Trump respondeu que era ela quem se tornara “inaceitável”.
O episódio insere-se num padrão mais amplo de pressão de Washington sobre aliados europeus. Trump criticou também a Alemanha e o Reino Unido por não terem correspondido ao esforço militar americano, e voltou a questionar a utilidade da NATO, que descreveu como um “tigre de papel”. Na perspetiva de Lisboa e de outras capitais da Aliança, o discurso de Trump sinaliza uma exigência de subordinação que colide com a soberania dos Estados-membros. Para o Brasil e a África lusófona, o contencioso ilustra a crescente imprevisibilidade da política externa norte-americana, embora sem envolvimento direto. O governo italiano, ao mesmo tempo que responde com firmeza, procura evitar uma rotura definitiva: Meloni afirmou que não voltará a alimentar a polémica e que continua a acreditar na “unidade do Ocidente”. O próximo teste será a cimeira da NATO em Haia, onde se espera que estas tensões sejam retomadas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa anglo-americana enquadra o confronto como uma rixa pessoal, destacando a ironia de Meloni já ter sido chamada de 'sussurradora de Trump' na Europa. Retrata os ataques de Trump como mesquinhos, focados numa foto e nos seus índices de popularidade internos, e nota a rápida deterioração de uma relação outrora amigável.
A imprensa italiana reage com indignação às repetidas acusações de Trump, retratando a Itália como um aliado injustamente visado. Sublinha o silêncio digno do governo após as primeiras respostas firmes, enquadrando os ataques como ingratos face às contribuições italianas para a NATO, e sugere uma crise de confiança mais ampla no vínculo transatlântico.
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