
Sob o disfarce de 'The Cockroaches', os Rolling Stones mostram que ainda têm muito a dizer
O 25.º álbum de estúdio, 'Foreign Tongues', chega com convidados de luxo, críticas políticas e a vitalidade de quem se recusa a parar.
Na primavera de 2026, um single enigmático surgiu nas plataformas digitais assinado por The Cockroaches. O nome, uma recuperação do pseudónimo secreto que os Rolling Stones usavam nos anos 1970 para passar despercebidos, servia de pista para a resiliência de uma banda que, como as baratas, parece capaz de sobreviver a qualquer cataclismo. A faixa era 'Rough and Twisted', o primeiro vislumbre de 'Foreign Tongues', o 25.º álbum de estúdio do grupo, gravado em poucas semanas nos Metropolis Studios, em Londres, sob a batuta do produtor Andrew Watt. O disco, que chegou às lojas a 10 de julho, reúne o núcleo octogenário — Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood — a uma constelação de convidados e a uma energia que, segundo a crítica australiana, dissipa de vez as dúvidas sobre a capacidade de criar rock relevante depois dos oitenta.
O alinhamento de catorze temas alterna o blues elétrico da abertura com a soul dançante de 'Jealous Lover', ecos de 'Miss You' e duas releituras que fecham um círculo afetivo: uma versão dilacerante de 'You Know I’m No Good', de Amy Winehouse, e uma 'Beautiful Delilah' de Chuck Berry, o ídolo do primeiro compacto da banda, em 1963. A lista de participações especiais é um desfile de cúmplices históricos e admiradores recentes. Paul McCartney imprime a sua assinatura melódica no baixo de 'Covered In You'; Robert Smith, dos The Cure, acrescenta sintetizadores e uma intervenção de guitarra em 'Divine Intervention'; Chad Smith, dos Red Hot Chili Peppers, marca o ritmo em 'Beautiful Delilah'; e Bruno Mars faz uma aparição quase lúdica com uma campainha em 'Never Wanna Lose You'. Observadores na imprensa francófona notam, porém, que o álbum oscila entre a repetição de fórmulas e momentos de rara honestidade, como quando Keith Richards ousa encarar a finitude em 'Divine Intervention' ou quando Jagger transforma a desilusão com os Estados Unidos numa country rock amarga em 'Ringing Hollow'.
É precisamente na dimensão política que 'Foreign Tongues' mais se distancia da nostalgia. Em 'Mr Charm', Jagger desfere um golpe contra o “magnata louco” Elon Musk, enquanto a figura de Donald Trump paira como um espectro sobre canções que, sem nunca o nomear, lamentam o estado da democracia americana. “Lady Liberty don’t look so good when there’s a tear in her gown”, canta em 'Ringing Hollow', num lamento que a imprensa sueca descreve como um dos momentos mais lúcidos do disco. A mesma crítica escandinava, contudo, não poupou a banda pela decisão de lançar o álbum em parceria com a FIFA, com direito a vinil limitado e coleção do Campeonato do Mundo, um gesto que contrasta com o tom politizado das letras. Já a imprensa italiana sublinha a vontade de Jagger e Wood em regressar à estrada, apesar dos problemas de saúde de Richards, cuja artrite impediu a perna europeia da digressão anterior.
A capa, uma ilustração de Nathaniel Mary Quinn que aglutina os rostos caricaturados de Jagger, Richards e Wood, funciona como um múltiplo gesto de desafio aos que insistem em decretar o fim da linha. Aos 82 anos, Jagger ainda desliza entre falsetes e provocações com a mesma ginga de sempre, e a bateria póstuma de Charlie Watts em 'Hit Me In The Head' — um tema punk onde o vocalista ironiza sobre a própria mortalidade — transforma a ausência numa presença quase festiva. Alguns títulos da imprensa alemã classificam 'Foreign Tongues' como o melhor disco dos Stones desde 'Voodoo Lounge', de 1994, mas o que fica, para lá dos juízos, é a imagem de um grupo que, sob o disfarce de barata, continua a rastejar para a luz, com a mesma urgência dos dias em que tinha o mundo inteiro a seus pés.
| Imprensa atlântica / anglosfera | +0.90 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | +0.70 | aligned |
Os Rolling Stones são os estadistas mais velhos do rock que acabaram de entregar uma obra-prima tardia, provando que relevância e vitalidade não estão ligadas à idade.
Ao enfatizar a longevidade da banda e a relevância temática do álbum (antiguerra, anti-Musk), a narrativa constrói uma história de poder artístico duradouro, tornando a qualidade do álbum aparentemente inevitável.
A narrativa omite qualquer discussão sobre problemas de saúde da banda ou possível declínio, concentrando-se apenas no retorno triunfal.
Os Rolling Stones estão de volta e ainda se divertem muito fazendo música. Este álbum é uma prova da sua vitalidade duradoura e uma promessa de turnê.
Ao focar no prazer da banda no estúdio e no sucesso comercial e crítico do álbum, a narrativa cria uma história edificante de uma banda lendária que se recusa a desaparecer.
A narrativa omite qualquer avaliação crítica da inovação artística do álbum ou de seus possíveis defeitos, destacando em vez disso a diversão da banda e a próxima turnê.
Amplie o olhar
Casa da Moeda dos EUA começa a produzir moeda de um dólar com rosto de Trump
7 idiomas · 25 veículos
De Economy & MarketsIndonésia e Brasil puxam otimismo no setor automotivo, enquanto Argentina e Itália enfrentam retração
4 idiomas · 8 veículos
De TechnologySoyuz lança astronauta da NASA Anil Menon e dois cosmonautas para missão de oito meses na ISS
3 idiomas · 9 veículos