
Sánchez rejeita resultado e convoca protestos enquanto Fujimori amplia vantagem no Peru
Com margem de 35 mil votos e 256 mil atas ainda por revisar, o candidato esquerdista alega falta de transparência e mobiliza apoiantes, acirrando a crise política no país andino.
O segundo turno das eleições presidenciais peruanas entrou numa fase de impasse agudo depois de o partido Juntos por el Perú, do candidato esquerdista Roberto Sánchez, anunciar que não reconhecerá o resultado oficial e convocar manifestações para esta quarta-feira em Lima. Com 99% das urnas apuradas, a adversária direitista Keiko Fujimori mantém uma vantagem de cerca de 35 mil votos — 50,097% contra 49,903% —, mas o órgão eleitoral ainda não proclamou um vencedor, pois restam por revisar aproximadamente 256 mil votos contidos em atas impugnadas. A denúncia de “falta de transparência” e de “mudança de regras eleitorais” por parte da coligação de Sánchez, que não detalhou as supostas irregularidades, representa uma viragem face à postura adotada quando o próprio candidato liderava a contagem preliminar.
A evolução do escrutínio ajuda a compreender a crispação. Nos primeiros dias após a votação de 7 de junho, Sánchez surgia à frente, impulsionado pelo voto urbano e pela herança política do ex-presidente Pedro Castillo. Contudo, à medida que chegaram os boletins do estrangeiro e de zonas rurais, Fujimori recuperou terreno e assumiu a dianteira. O quadro de divisão profunda ficou cristalizado no distrito montanhoso de Lahuaytambo, onde cada candidato obteve exatamente 181 votos — um empate perfeito que funciona como microcosmo de um país fraturado. A autoridade eleitoral advertiu que a proclamação definitiva pode demorar entre duas semanas e o final do mês, alimentando um clima de incerteza que observadores em Brasília comparam à polarização vivida pelo Brasil nas eleições de 2022.
A tensão é amplificada pela reação de familiares das vítimas dos protestos antigovernamentais de 2022 e 2023, que esta terça-feira se concentraram em frente ao Palácio de Justiça em Lima. A Associação de Mártires e Vítimas, que representa 49 mortos e dezenas de feridos durante os distúrbios que exigiam a libertação de Pedro Castillo e contestavam a então presidente Dina Boluarte, rejeita liminarmente um governo de Fujimori. “Não vamos aceitar um governo da filha de um ditador”, declarou a porta-voz Milagros Samillán, cujo irmão foi morto nos confrontos, acusando a candidata de blindar os responsáveis pelas mortes. A sobreposição entre a memória do regime autoritário de Alberto Fujimori e as feridas ainda abertas da repressão recente acrescenta uma camada de risco à já frágil transição.
Na perspetiva de Lisboa, a crise peruana é acompanhada com apreensão por recordar os impasses pós-eleitorais que marcaram países lusófonos como Moçambique e Angola, onde contagens contestadas e acusações de fraude minaram a confiança nas instituições. A comunidade de analistas latino-americanos sublinha que, independentemente de quem for declarado vencedor, o próximo presidente herdará um país exausto pela instabilidade crónica — foram seis presidentes em oito anos — e com uma oposição social organizada que promete não dar tréguas. A legitimidade do processo dependerá da capacidade do órgão eleitoral de revisar as atas impugnadas com celeridade e critérios transparentes, num ambiente em que cada dia de atraso corrói a credibilidade das urnas e oferece combustível para a mobilização de rua.
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