
Regresso de 640 mil deslocados ao sul do Líbano contrasta com fragilidade do acordo de cessar-fogo
Apesar do regresso massivo após o cessar-fogo mediado pelos EUA e Irão, cerca de 500 mil pessoas continuam deslocadas e o acordo-quadro enfrenta rejeição do Hezbollah e ceticismo quanto à sua implementação.
Mais de 640 mil deslocados internos regressaram às suas casas no sul do Líbano e nos subúrbios de Beirute desde a entrada em vigor do cessar-fogo, a 21 de junho, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM). O movimento sucede-se a mais de três meses de confrontos que, de acordo com as autoridades libanesas, causaram cerca de 4.300 mortos e obrigaram mais de um milhão de pessoas a abandonar as suas residências. Contudo, a OIM indica que aproximadamente 500 mil pessoas permanecem deslocadas, e o regresso a dezenas de localidades junto à fronteira com Israel continua bloqueado pela presença militar israelita e pela destruição em larga escala.
O acordo-quadro assinado entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos, na semana passada, prevê o desarmamento do Hezbollah, uma retirada gradual das forças israelitas e o destacamento do exército libanês, começando por duas zonas designadas como “experimentais”. O Presidente libanês, Joseph Aoun, afirmou que o entendimento “não legitima a ocupação israelita” e defendeu que a decisão soberana de separar o percurso libanês do conflito entre Washington e Teerão constitui um desafio para setores “habituados a estar sob tutela”. Israel, por seu lado, mantém tropas numa “zona de segurança” com dez quilómetros de profundidade e, segundo comunicados militares, continuou a realizar ataques contra alvos do Hezbollah, apesar da trégua. O grupo xiita, apoiado pelo Irão, rejeitou o acordo, e analistas regionais manifestam dúvidas sobre a capacidade do Estado libanês para concretizar o desarmamento da milícia.
A dimensão da destruição no sul do país, onde, segundo relatos locais, restam “escombros e ruínas”, condiciona o regresso dos deslocados e a reconstrução. As autoridades libanesas removeram acampamentos improvisados em Beirute e arredores, ao mesmo tempo que diminuía o número de centros de abrigo oficiais. Na perspetiva da diáspora libanesa — que inclui comunidades numerosas no Brasil e em Portugal —, o conflito gerou um “trauma” profundo, com muitos expatriados a afirmar que tanto Israel como o Hezbollah são vistos como adversários. Relatos recolhidos junto da rede da diáspora apontam para uma alteração na opinião pública libanesa, com menor exibição de símbolos de apoio à “resistência” e uma esperança cautelosa de que o governo consiga separar-se da influência da milícia.
O conflito foi desencadeado a 2 de março, quando o Hezbollah disparou rockets contra Israel, numa ação que descreveu como retaliação pela morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, nos primeiros ataques dos EUA e de Israel contra o Irão, a 28 de fevereiro. A resposta israelita incluiu uma campanha aérea massiva e uma incursão terrestre, com ordens de evacuação repetidas. O entendimento entre Washington e Teerão, selado no mês passado, permitiu estabelecer o cessar-fogo no Líbano, mas a sua sustentação permanece incerta. O acordo-quadro não fixa um calendário para a retirada israelita, vinculando-a à conclusão do desarmamento do Hezbollah, num processo que o governo libanês insiste que será conduzido pelas forças armadas, enquanto a comunidade internacional monitoriza a frágil trégua.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Mais de 640.000 deslocados libaneses regressaram a casa, mas cerca de 500.000 continuam no limbo devido à trégua frágil. O conflito eclodiu depois de o Hezbollah ter disparado rockets contra Israel, arrastando o Líbano para a guerra entre os EUA e o Irão.
A UNICEF alerta que 100.000 crianças libanesas correm o risco de perder o ano letivo depois de 340 escolas terem sido danificadas ou destruídas em ataques do regime israelita. A crise educativa agrava o balanço humanitário da guerra.
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