Entrar
Edição das 20:00 CETsegunda-feira, 22 de junho de 2026
307 veículos · 17 idiomas1242 briefing hoje
Esportesegunda-feira, 22 de junho de 2026

Quarenta anos da tarde em que Maradona reescreveu o futebol e a memória argentina

A 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, Diego Armando Maradona marcou dois golos que transcenderam o desporto e, quatro décadas depois, a seleção argentina volta a jogar na mesma data, agora no Mundial de 2026.

A Argentina venceu a Inglaterra por 2-1 nos quartos de final do Mundial do México e avançou para as semifinais, etapa que abriu caminho para o título conquistado dias depois contra a Alemanha Federal. O marcador foi construído em apenas quatro minutos do segundo tempo, num contraste que o futebol raramente reproduz: primeiro, a astúcia polémica da 'Mão de Deus'; depois, uma arrancada de sessenta metros que deixou cinco adversários pelo caminho e entrou para a história como o 'Golo do Século'.

Aos 51 minutos, Maradona antecipou-se ao guarda-redes Peter Shilton e desviou a bola com o punho esquerdo, gesto validado pelo árbitro tunisino Ali Bin Nasser sob o protesto imediato dos ingleses. O próprio jogador descreveria o lance, primeiro como obra partilhada entre a sua cabeça e a mão divina, e mais tarde, na biografia, como um ato terreno: 'Foi a mão do Diego!'. Quatro minutos depois, recebeu de Héctor Enrique ainda no meio-campo argentino, driblou sucessivamente Beardsley, Reid, Butcher, Fenwick e o próprio Shilton, e finalizou com a baliza aberta. O relato de Víctor Hugo Morales, com a voz embargada, fixou a imagem do 'barrilete cósmico' que ainda hoje povoa as celebrações argentinas.

O jogo carregava uma carga simbólica que ia além do relvado. Apenas quatro anos antes, os dois países tinham-se enfrentado na Guerra das Malvinas, e esse contexto emocional foi reconhecido por companheiros de equipa como Jorge Valdano e pelo preparador físico Fernando Signorini. Na perspetiva de observadores em Buenos Aires, a vitória foi vivida como uma resposta desportiva a uma ferida nacional, ainda que o próprio plantel, na véspera, evitasse misturar política e futebol. Do lado inglês, o avançado Gary Lineker admitiu publicamente a admiração pelo génio de Maradona, enquanto Shilton manteve durante décadas uma posição de condenação, recusando qualquer respeito desportivo pelo autor do primeiro golo.

Quarenta anos depois, a efeméride coincide com o segundo jogo da Argentina no Mundial de 2026, frente à Áustria, em Dallas. A cidade texana tem um significado particular para os argentinos: foi ali que, em 1994, a seleção disputou o primeiro encontro após o doping e o banimento de Maradona, uma derrota por 2-0 diante da Bulgária que expôs a orfandade de uma equipa ainda traumatizada. Agora, Lionel Messi, capitão da atual campeã mundial, entra em campo com a possibilidade de se isolar como o maior goleador da história dos Mundiais, marca que partilha com Miroslav Klose. Nas bancadas do AT&T Stadium, adeptos como Rubén, de 72 anos, e Martín, de 39, unem a memória do ídolo de 1986 à expectativa de um novo capítulo, enquanto o antigo campeão Ricardo Bochini recorda que 'jogar um Mundial como o de Maradona no México é muito difícil de repetir'.

A data reaviva, assim, uma narrativa que se foi ampliando com o tempo. Se nos anos imediatos ao México 86 o título ofuscava a vingança simbólica, a partir de meados da década de 1990 o próprio Maradona passou a sublinhar a dimensão patriótica do duelo, afirmando que jogara 'a pensar nas Malvinas'. Esse segundo nascimento do mito, alimentado pela oralidade e pela cultura popular, fixou o Argentina-Inglaterra como um dos episódios mais recordados da história do futebol, celebrado anualmente no Dia do Futebolista argentino e agora reencontrado em pleno calendário de um Mundial.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 4 idiomas

32%
TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Imprensa latino-americanaImprensa europeia continental
Imprensa latino-americana/ Mercado
TriunfoRevanchismo

Quarenta anos depois, a Argentina celebra aquela partida contra a Inglaterra como um mito nacional: a astúcia da 'Mão de Deus' e a poesia do 'Gol do Século' continuam sendo a reparação simbólica pelas Malvinas e a prova de que Maradona tocou o céu com as mãos. A data tornou-se patrimônio emocional, um dia em que o futebol se fez destino e identidade coletiva.

Imprensa europeia continental/ Mediterrânea
CeticismoDistanciamento

Quarenta anos depois, aquela tarde no Azteca é lembrada como o último dia de liberdade do futebol, antes que a tecnologia engaiolasse o jogo. A Mão de Deus e o Gol do Século permanecem um enigma poético, um instante de pura anarquia criativa que nenhum replay jamais explicará completamente.

Artigos relacionados

Ler mais
Últimas notícias
Na semana fria, um cardápio global: como as receitas caseiras viajam das redes sociais aos jornais·Baratas incorporaram 40 mil fragmentos de DNA bacteriano, revela estudo genômico·Vaga de calor extremo na Europa ultrapassa 40°C e faz vítimas em França·EUA suspendem sanções ao petróleo iraniano por 60 dias em troca de compromissos nucleares e marítimos·Pais imploram e estudantes choram nos portões fechados do reexame do NEET na Índia·Messi supera Klose e isola-se como maior artilheiro da história das Copas·Governos intervêm nos mercados de arrendamento e trabalho para conter crise de custos·Marketplaces russos bloqueiam venda de combustível por ordem da autoridade antitruste·Na semana fria, um cardápio global: como as receitas caseiras viajam das redes sociais aos jornais·Baratas incorporaram 40 mil fragmentos de DNA bacteriano, revela estudo genômico·Vaga de calor extremo na Europa ultrapassa 40°C e faz vítimas em França·EUA suspendem sanções ao petróleo iraniano por 60 dias em troca de compromissos nucleares e marítimos·Pais imploram e estudantes choram nos portões fechados do reexame do NEET na Índia·Messi supera Klose e isola-se como maior artilheiro da história das Copas·Governos intervêm nos mercados de arrendamento e trabalho para conter crise de custos·Marketplaces russos bloqueiam venda de combustível por ordem da autoridade antitruste·
Atualizado 13:024 idiomas · 13 veículos
13 veículos|4 idiomas|3 min de leitura
segunda-feira, 22 de junho de 2026

Quarenta anos da tarde em que Maradona reescreveu o futebol e a memória argentina

A 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, Diego Armando Maradona marcou dois golos que transcenderam o desporto e, quatro décadas depois, a seleção argentina volta a jogar na mesma data, agora no Mundial de 2026.

A Argentina venceu a Inglaterra por 2-1 nos quartos de final do Mundial do México e avançou para as semifinais, etapa que abriu caminho para o título conquistado dias depois contra a Alemanha Federal. O marcador foi construído em apenas quatro minutos do segundo tempo, num contraste que o futebol raramente reproduz: primeiro, a astúcia polémica da 'Mão de Deus'; depois, uma arrancada de sessenta metros que deixou cinco adversários pelo caminho e entrou para a história como o 'Golo do Século'.

Aos 51 minutos, Maradona antecipou-se ao guarda-redes Peter Shilton e desviou a bola com o punho esquerdo, gesto validado pelo árbitro tunisino Ali Bin Nasser sob o protesto imediato dos ingleses. O próprio jogador descreveria o lance, primeiro como obra partilhada entre a sua cabeça e a mão divina, e mais tarde, na biografia, como um ato terreno: 'Foi a mão do Diego!'. Quatro minutos depois, recebeu de Héctor Enrique ainda no meio-campo argentino, driblou sucessivamente Beardsley, Reid, Butcher, Fenwick e o próprio Shilton, e finalizou com a baliza aberta. O relato de Víctor Hugo Morales, com a voz embargada, fixou a imagem do 'barrilete cósmico' que ainda hoje povoa as celebrações argentinas.

O jogo carregava uma carga simbólica que ia além do relvado. Apenas quatro anos antes, os dois países tinham-se enfrentado na Guerra das Malvinas, e esse contexto emocional foi reconhecido por companheiros de equipa como Jorge Valdano e pelo preparador físico Fernando Signorini. Na perspetiva de observadores em Buenos Aires, a vitória foi vivida como uma resposta desportiva a uma ferida nacional, ainda que o próprio plantel, na véspera, evitasse misturar política e futebol. Do lado inglês, o avançado Gary Lineker admitiu publicamente a admiração pelo génio de Maradona, enquanto Shilton manteve durante décadas uma posição de condenação, recusando qualquer respeito desportivo pelo autor do primeiro golo.

Quarenta anos depois, a efeméride coincide com o segundo jogo da Argentina no Mundial de 2026, frente à Áustria, em Dallas. A cidade texana tem um significado particular para os argentinos: foi ali que, em 1994, a seleção disputou o primeiro encontro após o doping e o banimento de Maradona, uma derrota por 2-0 diante da Bulgária que expôs a orfandade de uma equipa ainda traumatizada. Agora, Lionel Messi, capitão da atual campeã mundial, entra em campo com a possibilidade de se isolar como o maior goleador da história dos Mundiais, marca que partilha com Miroslav Klose. Nas bancadas do AT&T Stadium, adeptos como Rubén, de 72 anos, e Martín, de 39, unem a memória do ídolo de 1986 à expectativa de um novo capítulo, enquanto o antigo campeão Ricardo Bochini recorda que 'jogar um Mundial como o de Maradona no México é muito difícil de repetir'.

A data reaviva, assim, uma narrativa que se foi ampliando com o tempo. Se nos anos imediatos ao México 86 o título ofuscava a vingança simbólica, a partir de meados da década de 1990 o próprio Maradona passou a sublinhar a dimensão patriótica do duelo, afirmando que jogara 'a pensar nas Malvinas'. Esse segundo nascimento do mito, alimentado pela oralidade e pela cultura popular, fixou o Argentina-Inglaterra como um dos episódios mais recordados da história do futebol, celebrado anualmente no Dia do Futebolista argentino e agora reencontrado em pleno calendário de um Mundial.

Divergência das fontes

Esporte · 13 veículos · 4 idiomas

32%Média

Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

Favorável80%
Neutro20%

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 4 idiomas

TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Imprensa latino-americanaImprensa europeia continental
Imprensa latino-americana/ Mercado
TriunfoRevanchismo

Quarenta anos depois, a Argentina celebra aquela partida contra a Inglaterra como um mito nacional: a astúcia da 'Mão de Deus' e a poesia do 'Gol do Século' continuam sendo a reparação simbólica pelas Malvinas e a prova de que Maradona tocou o céu com as mãos. A data tornou-se patrimônio emocional, um dia em que o futebol se fez destino e identidade coletiva.

Imprensa europeia continental/ Mediterrânea
CeticismoDistanciamento

Quarenta anos depois, aquela tarde no Azteca é lembrada como o último dia de liberdade do futebol, antes que a tecnologia engaiolasse o jogo. A Mão de Deus e o Gol do Século permanecem um enigma poético, um instante de pura anarquia criativa que nenhum replay jamais explicará completamente.

Esta notícia apareceu em

13 veículos · 4 idiomas

Artigos relacionados

Geopolítica & Política

EUA suspendem sanções ao petróleo iraniano por 60 dias em troca de compromissos nucleares e marítimos

6 idiomas · 27 veículos

Mídia e Entretenimento

O ouvido que ouvia o futuro: Clive Davis morre aos 94 anos

8 idiomas · 20 veículos

Geopolítica & Política

Vance anuncia regresso de inspetores da AIEA ao Irão, mas Teerã desmente compromisso formal

6 idiomas · 22 veículos

Ler mais