
Os nomes que ecoam: a angústia dos exames da Índia ao Brasil
Enquanto a Índia contabiliza vidas perdidas após a fraude no NEET, Brasil e Indonésia revelam os resultados de seus próprios ritos de seleção, num junho de ansiedade e burocracia.
A lista circulou nas redes sociais na tarde de 26 de junho: catorze nomes, cada um acompanhado do peso silencioso de um sonho interrompido. Eram os jovens que, segundo a oposição indiana, tiraram a própria vida após o escândalo de fuga de provas do exame nacional de admissão à medicina, o NEET-UG. O líder do Congresso, Rahul Gandhi, partilhou a lista ao questionar o primeiro-ministro Narendra Modi por ter felicitado o ministro da Educação no dia do seu aniversário, sem uma palavra pública sobre as vítimas. Naquele mesmo dia, a Federação dos Estudantes da Índia exigia que a Agência Nacional de Testes revelasse os números reais de presenças no reexame de 21 de junho: mais de dois milhões de candidatos tinham comparecido à prova original de maio, mas apenas “mais de 20 lakhs” terão repetido o exame sob fortes medidas de segurança, deixando uma ausência de cerca de duzentas mil pessoas por explicar.
A controvérsia alastrou muito para além das salas de exame. A mensagem de parabéns de Modi ao ministro Dharmendra Pradhan recebeu uma “nota da comunidade” na plataforma X, um raro corretivo coletivo que sublinhava o contraste entre o elogio à implementação da Nova Política Educativa e a crise de credibilidade do sistema de testes. Em paralelo, o Conselho Nacional de Pesquisa e Formação Educacional introduzia um capítulo sobre o Estado de Emergência de 1975-77 nos manuais do 9.º ano, gesto que o partido no poder, o BJP, justificou como memória necessária para as gerações futuras, enquanto o Congresso o classificou como “política divisionista”. Na Bengala Ocidental, o partido de Gandhi preparava uma campanha de quarenta dias sob o lema “O Eco dos Estudantes”, que culminaria numa marcha até Deli, enquanto apelidava a agência de exames de “Agência Nacional de Trauma”.
A milhares de quilómetros, o Brasil vivia o seu próprio ciclo de expectativa e procedimento. No mesmo 26 de junho, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou o resultado dos pedidos de atendimento especializado para o Enem 2026: candidatos com deficiência, ansiedade ou condições de saúde saberiam se teriam direito a tempo adicional, acompanhante ou material adaptado. O calendário do exame, com provas marcadas para novembro, desenrolava-se com a precisão burocrática que caracteriza o maior vestibular do país, enquanto as inscrições para o Exame Nacional de Residência (Enare) se aproximavam do fim, com taxas de 330 reais para as especialidades médicas de acesso direto. A linguagem dos editais e dos cronogramas, partilhada por milhões de famílias, ecoava a mesma promessa de mobilidade social que move os candidatos indianos.
Na Indonésia, a sintonia era semelhante. A Bolsa Talenta Indonesia, programa de cooperação entre o ministério da Educação e o fundo de gestão de bolsas LPDP, anunciava os aprovados na segunda fase de seleção, enquanto o Instituto Tecnológico de Bandung (ITB) publicava os resultados do concurso especial para docentes do ensino vocacional. Em ambos os casos, o ritual repetia-se: o acesso a uma plataforma digital, a introdução de um número de candidatura e de uma palavra-passe, e o instante em que o ecrã revela um veredito. A arquitetura administrativa que sustenta estes processos — da Índia ao Brasil, da Indonésia a Portugal, onde os resultados do Enem também são aproveitados por universidades lusas — assenta sobre uma convicção partilhada de que o mérito pode ser medido e certificado.
O mês de junho de 2026 cristalizou assim um fenómeno que atravessa continentes: a temporada de exames como espaço de ansiedade coletiva, de disputa política e de engenharia institucional. Enquanto os portais oficiais exibiam listas de aprovados e os ministros trocavam felicitações, a lista dos catorze nomes continuava a circular, recordando que, por detrás de cada estatística de presenças e de cada resultado, há um corpo que sentiu o peso de um sistema que promete futuros, mas também os pode despedaçar.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A temporada de exames de admissão na Índia mergulhou no caos, com vazamentos de provas forçando reaplicações e provocando suicídios de estudantes. Líderes da oposição acusam o governo de indiferença, enquanto protestos denunciam um sistema falido.
A temporada de exames no Brasil transcorre com comunicados administrativos de rotina, com a divulgação de resultados de atendimento especializado e a abertura de inscrições para residência médica. O processo é apresentado como ordenado e técnico, sem qualquer menção a transtornos.
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