
Lágrimas no turno: o esgotamento de quem segura o mundo pelos fios da pele
Do choro de uma enfermeira em Malmö aos processos por homofobia que triplicaram no Brasil, uma geografia íntima da exaustão revela o preço de sustentar sistemas que já não sustentam ninguém.
A enfermeira começou a chorar durante a passagem de turno na ala cardíaca do hospital universitário de Malmö. Não era a primeira vez. Tinha passado o dia a sentir-se insuficiente, a correr entre monitores e campainhas, a deixar tarefas por fazer. Quando tentou explicar à colega do turno da noite o que ficara pendente, a voz quebrou. A colega, por sua vez, também desatou a chorar — o peso do que herdava era demasiado. A cena, relatada por representantes sindicais à imprensa sueca, não é um acidente de percurso. É a textura diária de uma crise que atravessa continentes e se entranha nos corredores de hospitais, centros de saúde e tribunais, onde o cuidado — ou a sua ausência — se tornou a matéria política mais urgente do nosso tempo.
Na perspetiva de Brasília, o Conselho Nacional de Justiça divulgou em 2025 um salto nos processos por preconceito contra a população LGBTQIAPN+: os casos de injúria por identidade de género quase triplicaram, passando de 83 para 221 num ano. O Judiciário brasileiro atribui o aumento, em parte, a uma maior consciência dos direitos e a normas que facilitaram o acesso à Justiça — como o reconhecimento do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de alteração de prenome e género diretamente nos cartórios. Contudo, o dado também expõe uma violência persistente que, tal como a exaustão das equipas de saúde, recai de forma desproporcional sobre corpos já vulnerabilizados. Em paralelo, a Comissão Nacional dos Direitos Humanos do México instava as prisões do país a adotar protocolos contra a discriminação da população LGBT+, alertando para contextos de rejeição, isolamento e agressão dentro dos centros penitenciários.
A milhares de quilómetros dali, no parlamento do Bangladesh, o ministro da Saúde revelava um retrato de abandono que ecoa as angústias das enfermeiras suecas. Nos 310 hospitais públicos de subdistrito, 485 máquinas de raio-X e 395 aparelhos de ultrassom estão avariados, muitos deles irreparáveis. A população rural, que depende dessas unidades para um primeiro diagnóstico, vê-se empurrada para clínicas privadas de preços proibitivos. Ao mesmo tempo, quase um quarto dos cargos de médico no país estão vagos. Observadores em Dhaka sublinham que a combinação de equipamentos obsoletos e falta de pessoal não é apenas uma falha administrativa: é uma arquitetura de negligência que condena os mais pobres a uma espera sem fim, enquanto a taxa de mortalidade materna atinge valores que, nas palavras de analistas locais, envergonham qualquer sociedade que se pretenda civilizada.
Na Suécia, o debate político transformou esse mal-estar difuso em confronto de prioridades. Enquanto sindicatos de Skåne exigiam que a região deixasse de governar a saúde pelo número de consultas e passasse a medir resultados e bem-estar, a maioria de direita em Kristianstad rejeitava propostas para formar funcionários em igualdade de género e criar uma “escola da menopausa” inspirada no modelo de Partille — onde a iniciativa contribuíra para reduzir as baixas e poupar milhões de coroas. Para a oposição social-democrata, a recusa revelava que a igualdade deixara de ser uma prioridade. Ao mesmo tempo, em Kalmar, o partido Moderado denunciava a falta de um mapeamento local das vítimas de violência de honra, argumentando que sem uma imagem agregada do problema as intervenções correm o risco de ser cegas. Em todos estes casos, o que está em causa é a dificuldade de nomear e medir o sofrimento — seja o de uma enfermeira que chora no fim do turno, o de uma pessoa LGBT+ que enfrenta o sistema prisional mexicano ou o de uma mulher que sangra até à morte por falta de uma máquina de raio-X funcional.
A crise do cuidado não tem uma única língua, mas fala um idioma comum de corpos levados ao limite. Em Portugal, onde o Serviço Nacional de Saúde enfrenta constrangimentos crónicos de pessoal e investimento, e em países lusófonos africanos como Moçambique e Angola, onde relatórios da Organização Mundial da Saúde documentam carências severas de equipamento e profissionais, a mesma pergunta ressoa: quanto vale, afinal, o trabalho de manter os outros vivos? A resposta, por enquanto, parece estar inscrita nas máquinas paradas do Bangladesh, nas 680 vagas por preencher na urgência de Uppsala e no pranto abafado de uma profissional que, depois de quarenta anos de serviço, já não consegue pedir desculpa por aquilo que o sistema lhe recusa. No silêncio que se segue ao choro, fica a imagem de uma sociedade que aplaudiu os seus cuidadores durante a pandemia e depois os devolveu à solidão de um corredor mal iluminado, à espera de um alívio que tarda.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os profissionais de saúde das enfermarias cardíacas na Suécia estão a soar o alarme: cargas de trabalho insuportáveis, demasiados doentes por enfermeiro e férias canceladas estão a levar o pessoal às lágrimas. Apesar de anos de avisos, a falta de pessoal persiste e os reforços prometidos nunca se concretizam. O sistema de cuidados está à beira da rutura e aqueles que o mantêm estão exaustos e desmoralizados.
A crise na enfermaria cardíaca expõe as profundas desigualdades de um sistema que desvaloriza o trabalho de cuidado, esmagadoramente realizado por mulheres. Assim como se denuncia a discriminação contra pessoas LGBTQIAPN+, a exploração dos profissionais de saúde deve ser enfrentada como uma questão de direitos e dignidade. O Estado tem o dever de garantir condições de trabalho dignas e de travar o sofrimento silencioso de quem cuida dos outros.
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