
França regista 2.025 mortes em excesso durante pico da onda de calor
Dados provisórios indicam aumento de 29% nos óbitos na semana de 22 a 28 de junho; Paris teve alta de 62% e autoridades alertam que número real será maior.
A França registou 2.025 mortes acima do esperado na semana de 22 a 28 de junho, o período mais intenso da onda de calor recorde que atingiu o país, segundo a agência de saúde pública Santé publique France. O número representa um aumento de 29,1% face à semana anterior, com a região de Paris a concentrar a subida mais acentuada: mais 62% de óbitos. A ministra da Saúde, Stéphanie Rist, confirmou os valores em declarações à televisão francesa, sublinhando que se trata de uma estimativa ainda parcial.
Os dados baseiam-se exclusivamente em certidões de óbito eletrónicas, que cobrem pouco mais de metade do total de mortes no país. A própria agência admite que o balanço é “sem dúvida inferior à realidade” e que a mortalidade final será mais elevada. As autoridades destacam um aumento particularmente expressivo nas mortes ocorridas em domicílios (91% face à semana anterior) e entre pessoas com mais de 45 anos, embora a maioria das vítimas continue a pertencer à faixa etária acima dos 65 anos.
A vaga de calor, que se prolongou por cerca de 11 dias e levou os termómetros acima dos 40°C em várias regiões, não se limitou a França. A Bélgica contabilizou 1.222 mortes em excesso (39% acima do habitual), os Países Baixos reportaram cerca de 480 óbitos adicionais e a Espanha atribuiu ao calor mais de mil mortes em junho. Cientistas da rede World Weather Attribution consideraram que um episódio desta intensidade teria sido “praticamente impossível” sem as alterações climáticas, num continente que aquece ao dobro da média global. Em Portugal, o governo declarou estado de alerta até terça-feira, com previsão de máximas acima dos 40°C e noites tropicais.
No plano político, o grupo ecologista francês apresentou uma moção de censura contra o governo de Sébastien Lecornu, acusando o executivo de “impreparação” e “inação” face à crise climática. O primeiro-ministro defendeu a criação de uma rede de centros de acolhimento para populações vulneráveis e recordou que, desde a vaga de calor de 2003 — que causou 15 mil mortes —, o país reforçou os planos de prevenção. Ainda assim, o diretor-geral dos hospitais públicos de Paris, Nicolas Revel, admitiu que o balanço deste ano deverá superar as 5.700 mortes registadas no verão anterior, embora fique aquém do desastre de 2003.
O impacto total da onda de calor só será conhecido dentro de meses, quando forem consolidadas todas as certidões de óbito e analisadas as causas de morte. Até lá, as autoridades francesas mantêm a vigilância, enquanto novas subidas de temperatura são esperadas no sul do país e em várias regiões da Europa.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Europa está ajoelhada pelo calor extremo, com mais de 1.300 mortos e danos estruturais nas vias férreas que paralisaram os transportes. A ameaça de novas ondas de calor mantém os preços da eletricidade elevados, no máximo desde a crise energética de 2022, enquanto a procura de refrigeração pressiona a rede.
O calor extremo tornou-se uma variável económica estrutural, uma nova taxa que a Europa não pode negociar. Com mais de 2.000 mortos em França e Espanha só em junho, e temperaturas até 44°C, a crise climática desencadeada pelos combustíveis fósseis está a pressionar hospitais, logística, agricultura e a própria competitividade do continente.
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