
O ronco de 25 mil vespas ecoa entre as ruínas de Roma
A celebração dos 80 anos da scooter italiana transformou o centro histórico num desfile de cores, nostalgia e comunidade global, com ecos que vão do Brasil a Portugal.
O som começou como um zumbido distante, quase um enxame metálico a aproximar-se das Termas de Caracalla. Depois, ganhou corpo: milhares de motores de dois tempos, agudos e ritmados, a preencher o ar quente da manhã romana. Eram mais de 25 mil Vespas, segundo a organização, que no sábado transformaram o centro histórico numa serpente cromática — amarelo-limão, verde-menta, vermelho-cereja — a serpentear entre o Coliseu, os Fóruns Imperiais e a Bocca della Verità. Alguns condutores traziam cães de estimação acomodados atrás do assento; outros exibiam tatuagens com a inscrição “La Dolce Vita”. A cada curva, o ronco coletivo arrancava sorrisos aos turistas que, por uma hora, viram a Roma antiga servir de cenário a uma procissão laica do design italiano.
A efeméride assinalava as oito décadas do depósito da patente, a 23 de abril de 1946, por Enrico Piaggio. O engenheiro Corradino D’Ascanio, que detestava motociclos, desenhou uma estrutura portante em chapa, com mudanças no guiador e uma carroçaria que protegia as saias das mulheres — um dos primeiros públicos-alvo, recordou Davide Zanolini, vice-presidente de marketing da Piaggio, à Associated Press. O nome veio da exclamação do próprio Piaggio ao ver o protótipo: “Parece uma vespa”. O zumbido do motor de 98 cc batizou o veículo que, vendido inicialmente por 55 mil liras, ajudou a motorizar a Itália do pós-guerra e se tornou, nas palavras do Times de Londres em 1946, “um produto completamente italiano, como não se via desde a biga da Roma antiga”.
O cinema ampliou o mito. Em 1953, “Férias em Roma” (Roman Holiday) pôs Gregory Peck e Audrey Hepburn a percorrer a cidade numa Vespa 125, cena que, segundo analistas da indústria em Milão, fez disparar as vendas em 30% em Itália e 50% no estrangeiro. Desde então, a scooter apareceu em mais de mil filmes, de “La Dolce Vita” a “O Talentoso Ripley”, e tornou-se um objeto de culto que atravessa gerações. No Brasil, clubes de aficionados organizam passeios em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde o modelo é visto como um ícone de estilo urbano e liberdade sobre duas rodas. Em Portugal, a Vespa evoca um imaginário mediterrânico de escapadelas à beira-mar e um certo glamour vintage que resiste à massificação dos transportes partilhados.
A parada de Roma, que reuniu participantes de 67 países — do Kuwait ao Japão, da Austrália às Filipinas —, foi também uma operação de diplomacia cultural espontânea. Motociclistas trocavam bandeiras de clubes, autocolantes e histórias de viagens de milhares de quilómetros. Um camionista inglês de 59 anos contou ter percorrido oito dias desde Newcastle, atravessando o Reno, para estar presente. A Polícia Local destacou 130 agentes e fechou as vias de forma progressiva, reabrindo-as logo após a passagem do cortejo, o que conteve os transtornos no trânsito. No “Vespa Village”, montado no Estádio dos Mármores, expunham-se mais de 160 versões do modelo, desde as raras Vespa 98 de 1946 até às elétricas contemporâneas, num museu vivo que atraiu tanto colecionadores como curiosos.
Ao fim da manhã, o enxame dispersou-se pelas ruelas do gueto judeu e pelos cafés de Trastevere, deixando atrás de si o eco de um ritual que é, ao mesmo tempo, celebração industrial e reencontro afetivo. A Vespa, que já foi descrita como “mais dama do que homem” pelo próprio marketing da marca, continua a zumbir sem pressa rumo ao futuro, carregando na carenagem arredondada a memória de um país que se reergueu sobre duas rodas e a promessa de que, enquanto houver uma estrada romana, haverá alguém disposto a percorrê-la com o vento no rosto.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A concentração de Vespas sob o Arco de Tito, monumento à destruição de Jerusalém, lança uma sombra sobre a celebração do estilo italiano. O evento destaca involuntariamente a escassez de rostos judeus na vida pública romana e a tensão não resolvida entre comemoração festiva e trauma histórico.
Roma transformou-se num teatro ao ar livre do génio italiano enquanto 25.000 Vespas desfilavam pelas suas ruas antigas, celebrando 80 anos de uma scooter que se tornou emblema global de liberdade e design. O evento, homenagem à visão de Corradino d'Ascanio, uniu gerações num alegre rugido de motores sob o Coliseu e os Fóruns Imperiais.
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