
No Danúbio, as cores do orgulho flutuam entre a memória e a esperança
A primeira Parada do Orgulho de Budapeste após a derrota de Viktor Orbán decorreu sob calor extremo, com a comunidade LGBTI+ a equilibrar o alívio da legalidade e a consciência de que as leis restritivas ainda persistem.
Pouco antes do início da marcha, um grupo de manifestantes anti-Pride arrancou as bandeiras arco-íris que o presidente da câmara de Budapeste, Gergely Karácsony, mandara içar na Ponte Erzsébet e atirou-as ao Danúbio. As cores deslizaram pela correnteza, enquanto na margem oposta se concentravam os primeiros milhares de participantes da 31.ª Parada do Orgulho, a primeira desde a derrota eleitoral do ultranacionalista Viktor Orbán, em abril. O gesto hostil, residual, contrastava com a autorização policial que, pela primeira vez em anos, permitia que o desfile decorresse sem o espectro da proibição.
Sob um calor recorde de 38 °C, a organização distribuiu garrafas de água e a companhia pública de abastecimento abriu fontes ao longo do percurso. A multidão, estimada entre 10 mil e 25 mil pessoas — muito aquém das cerca de 200 mil que desafiaram a proibição no ano anterior —, dançou ao som de música e empunhou bandeiras da União Europeia. “O Fidesz roubou-me 16 anos de vida”, desabafou o ativista e jornalista Ádám Kanicsár, referindo-se ao partido de Orbán. Para ele, a erosão dos direitos teve um efeito quase traumático, e a cura será lenta. A ativista trans Pippin Nadori lembrou que a prioridade imediata é revogar a proibição de alterar o género nos documentos oficiais, em vigor desde 2020, uma restrição que “complica a vida das pessoas a todos os níveis”.
A edição de 2025 transformara-se num ato de desobediência civil em massa, depois de o Parlamento húngaro ter aprovado uma lei que, sob o argumento da proteção de menores, permitia vetar eventos que expusessem a homossexualidade. A proibição foi contornada pelo autarca Karácsony, que assumiu a organização, e a marcha tornou-se a maior da história do país. Este ano, com o novo governo do conservador Péter Magyar, a polícia autorizou o evento sem obstáculos, embora a legislação restritiva continue em vigor. Magyar, que evitou o tema durante a campanha, afirmou que “ninguém deve ser estigmatizado pela forma como ama”, mas não compareceu à parada e pediu paciência quanto a mudanças legislativas. Em abril, o Tribunal de Justiça da União Europeia considerou que a lei de 2021, que proibia o acesso de menores a conteúdos LGBTI+, viola o direito comunitário.
No mapa Arco-Íris de 2026 da Ilga-Europe, a Hungria ocupa o 38.º lugar entre 49 países, apenas duas posições acima da Itália, onde a parada de Milão deste ano adotou o lema “Corpos em Revolta”. Para observadores em Lisboa, onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal há mais de uma década, a situação húngara ilustra como os direitos podem ser revertidos quando a vontade política se sobrepõe às garantias legais. No Brasil, que realiza algumas das maiores paradas do mundo, o episódio é acompanhado com interesse, sobretudo num momento em que a comunidade LGBTI+ enfrenta desafios políticos em várias regiões. A própria organização do Orgulho de Budapeste sublinhou que a verdadeira posição de um governo se mede pela legislação, e não por declarações individuais.
Ao fim da tarde, a marcha dispersou-se no parque Vérmező, transformando-se numa festa ao ar livre. As bandeiras que flutuavam no Danúbio já tinham desaparecido, mas as cores voltaram a ocupar as ruas da capital húngara, desta vez sem o medo que durante 16 anos as tingira de resistência. O calor extremo esvaziou as ruas mais cedo do que o habitual, mas deixou uma imagem duradoura: a de uma cidade onde o orgulho, pela primeira vez em quase duas décadas, pôde ser celebrado na legalidade, ainda que sob a sombra de leis que muitos esperam ver revogadas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Parada do Orgulho de Budapeste este ano pareceu comum, um contraste gritante com o ato de desafio do ano passado. Após dezesseis anos de restrições da era Orbán, a comunidade LGBTQ marchou sem medo de interferência policial, embora ativistas de extrema-direita tenham removido algumas bandeiras arco-íris. O evento marca um retorno histórico à normalidade, mesmo com a onda de calor e as tensões políticas residuais ao fundo.
As paradas do orgulho em Budapeste e Milão neste sábado expõem humores divergentes. Enquanto a capital húngara desfruta de uma celebração mais tranquila após o fim da era Orbán, a marcha de Milão adota um slogan de revolta dos corpos. Ambos os países continuam na parte inferior do mapa arco-íris europeu, evidenciando a discriminação persistente.
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