
O luxo que sussurra: entre o grito dos fãs e a leveza do couro, Milão redefine o guarda-roupa masculino
Na semana de moda masculina de Milão, marcas como Tod's, Prada e Dolce & Gabbana apostaram no artesanato silencioso e na identidade, enquanto celebridades globais e fãs de K-pop amplificavam o espetáculo.
Sob o sol impiedoso de Milão, os gritos dos fãs de Han Ji-sung, integrante do grupo Stray Kids, rompiam o silêncio da Via Mozart. Aglomerados atrás das grades da Villa Necchi Campiglio, tentavam vislumbrar o ídolo que, no interior da mansão racionalista, observava casacos de couro com a mesma serenidade aristocrática que Diego Della Valle, chairman da Tod’s, cultiva há décadas. Lá dentro, o couro Pashmy, reduzido a 0,3 milímetros de espessura, caía sobre os ombros como uma pashmina — uma peça tão leve que parecia desmentir a própria natureza do material. A cena encapsulou o pulso duplo que percorreu a semana de moda masculina milanesa: de um lado, o ruído global do pop; do outro, um luxo que se recolhe ao tato e à memória.
Essa procura pelo essencial encontrou a sua formulação mais radical na passerelle de plexiglass retroiluminada por néon da Prada. Miuccia Prada e Raf Simons destilaram a coleção até um único modelo de calças, repetido em variações de tecido e cor, e um blusão de ganga de mangas três-quartos que substituía a t-shirt. “Queríamos distanciar-nos das formas exasperadas, das construções elaboradas, das complicações contínuas”, explicaram nos bastidores. O gesto não nascia de uma limpeza do excesso, mas de uma recusa inicial: “Se há algo que detesto neste período é o design inútil”, afirmaram. O resultado foi uma silhueta fina, quase despojada, onde os acessórios migravam de função — malas suspensas como marsúpios, lenços a fazer de cinto. Para observadores em Lisboa, a operação recorda um fio que liga o design italiano à subtração conceptual, ecoando a máxima de Della Valle na Tod’s: “Qualidade. Artesanato.” Duas palavras que, no meio da euforia especulativa do setor, soaram como um antídoto.
Enquanto a Tod’s e a Prada sussurravam, outras casas preferiram amplificar a própria herança. Ralph Lauren regressou ao calendário milanês com um desfile no seu palácio do centro histórico, onde a linha Purple Label abriu com conjuntos em tons neutros e índigo, seguidos pela explosão colorida da Polo, com patchwork e texturas. Lewis Hamilton, Henry Golding e o colombiano Maluma assistiam num ambiente íntimo de salão residencial. “Aquele smoking azul-marinho… era fenomenal!”, comentou Golding. Já a Dolce & Gabbana transformou o Metropol numa evocação da Sicília, com a coleção “Vacanze Siciliane”. Stefano Gabbana, que dias antes renunciara à presidência da empresa mantendo-se como diretor criativo, surgiu no final com uma t-shirt estampada com o rosto de Madonna. Os coordenados fluídos — polos de malha, calções de seda com estampas de limões, casacos bordados com corais — contavam, segundo os fundadores, “uma história de memória, beleza e artesanato”. Na perspetiva de analistas brasileiros, a presença de figuras como Maluma e, na próxima semana parisiense, J Balvin e Mon Laferte, sinaliza a relevância crescente do mercado e do imaginário latino-americanos para as marcas de luxo europeias.
À medida que Milão se despedia, as atenções voltavam-se para Paris, onde Jonathan Anderson apresentará a sua terceira coleção na Dior, Sarah Burton assinará a primeira linha masculina da Givenchy e Willy Chavarria levará o seu ativismo chicano à passerelle. Mas a imagem que persiste é a do blusão Brera da Tod’s, suspenso no cabide da Villa Necchi: um couro tão delgado que se move como tecido, lembrando que, numa temporada de gritos, o luxo também pode ser a arte de desaparecer.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa latino-americana cobre a moda masculina de Milão com um olhar pragmático de mercado: Ralph Lauren cativa todas as gerações, Paris antecipa uma masculinidade híbrida, e Dolce & Gabbana reafirma as raízes sicilianas em meio a uma mudança de liderança. O tom é distanciado, com foco em estratégias de marca e movimentos empresariais.
A imprensa continental europeia, especialmente a italiana, enquadra a coleção da Prada como um antídoto minimalista aos excessos da moda. A dupla criativa rejeita o design inútil, destilando um estilo essencial despojado de ornamentos. O tom é cético em relação às tendências dominantes e calmamente analítico.
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