
O avô que não conhece o neto e o pai que não pôde parar: os novos contornos do vínculo familiar
Enquanto estudos mostram que a licença-paternidade reduz o risco de depressão masculina, milhares de famílias enfrentam o afastamento entre pais e filhos adultos — e as velhas piadas de pai surgem como um inesperado elo químico.
Um avô escreve a uma coluna de aconselhamento na imprensa canadiana. A letra é contida, mas a ferida transborda: por causa de tensões entre a sua mulher e a nora, ainda não conheceu o segundo neto. O filho adulto parece paralisado entre apoiar a esposa e permitir que os filhos tenham avós. “Devemos desistir?”, pergunta o remetente, que assina como “um avô preocupado”. A resposta da colunista é tão direta quanto o desabafo: “Não. Absolutamente não. Chame o seu filho para uma conversa adulta.”
A correspondência privada ecoa um fenómeno que investigadores norte-americanos e do Sul da Ásia têm vindo a mapear com números e narrativas. Um estudo com 898 pais e filhos adultos, conduzido por universidades do Texas, do Nebraska e do Creighton, revelou um desencontro profundo de perceções. Os pais tendem a atribuir o corte de relações a más companhias ou a um excesso de direitos por parte dos filhos; os filhos adultos apontam, sobretudo, comportamentos tóxicos, ausência de suporte emocional e uma aceitação que sempre foi condicional. Em Dhaka, a psicóloga Kazi Rumana Haque descreve o mesmo padrão: conquistas escolares que nunca bastavam, silêncios punitivos, a sensação de que “a mente dos pais nunca se enche”. Para muitos filhos, o “no contact” não é um rompante, mas o desfecho de anos de mágoa acumulada.
Se o afastamento tardio revela feridas antigas, a presença precoce do pai parece funcionar como um preventivo químico. Dois estudos publicados no American Journal of Public Health, um com 4.290 pais de primeira viagem no Ohio e outro com 746 pais suecos acompanhados durante 18 meses, mostram que a licença-paternidade remunerada está associada a uma redução significativa de sintomas de ansiedade e depressão. Nos Estados Unidos, os pais que recorreram a licenças não pagas apresentaram uma probabilidade 58% maior de desenvolver ansiedade; entre os que desejavam parar mas não o fizeram, 75% citaram razões financeiras. Na Suécia, os investigadores do Instituto Karolinska observaram que uma licença equilibrada — nem demasiado curta nem excessivamente longa — favorece o bem-estar psicológico. Craig Garfield, pediatra do Hospital Infantil Lurie, em Chicago, defende que a licença remunerada não é apenas um benefício laboral, mas “uma questão de saúde pública com impacto profundo nas famílias e nas crianças”.
No outro extremo do espectro afetivo, há um gesto minúsculo que também altera a química corporal: a piada de pai. Um estudo da Universidade da Carolina do Norte, divulgado na plataforma PsyArXiv, analisou milhares de “dad jokes” e concluiu que a sua estrutura previsível — trocadilhos, jogos de palavras, humor sem malícia — ativa áreas do cérebro como o córtex pré-frontal e reduz os níveis de cortisol em mais de 36%, segundo uma revisão publicada na PLOS One. O psicólogo Paul J. Silvia nota que essa simplicidade permite que a piada atravesse gerações e crie “gelak tawa” (gargalhadas) partilhadas, reforçando laços exatamente onde eles andam mais frágeis.
A imagem que fica não é a da rutura consumada, mas a da hesitação antes dela. O avô canadiano ainda não desistiu. O pai norte-americano que não pôde parar carrega uma ansiedade que a política pública poderia aliviar. E o pai sueco que regressa ao trabalho depois de uma licença nem curta nem longa talvez conte, ao jantar, uma piada propositadamente banal — e o riso que se segue, mostram os gráficos, é já uma forma de regresso a casa.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Cada vez mais filhos adultos cortam todo o contato com os pais, uma decisão que descrevem como último recurso para se proteger após anos de negligência emocional e comportamentos controladores. Os pais muitas vezes veem isso como ingratidão, mas as pesquisas mostram que o afastamento se constrói gradualmente a partir de uma dor não reconhecida.
Tornar-se pai transforma a vida dos homens para melhor, com pesquisas mostrando melhorias na saúde mental e física, laços sociais mais fortes e envelhecimento cerebral mais lento. A paternidade é apresentada como um modelo de masculinidade positiva que aumenta o bem-estar geral.
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