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Mídia e Entretenimentosexta-feira, 26 de junho de 2026

No palco de Cannes, a criatividade humana retoma o protagonismo face à inteligência artificial

Entre o cepticismo em relação à IA e a ascensão dos criadores de conteúdo, o festival de publicidade de 2026 revelou uma indústria em busca de autenticidade e impacto cultural.

No auditório do Palais des Festivals, Fernando Machado, diretor de marca da Chipotle, empunhou uma guitarra imaginária. “Usar a IA para escrever um briefing ou escolher uma ideia criativa”, disse, “é como achar que sei tocar guitarra só porque sou bom no ‘Guitar Hero’.” A analogia, aplaudida por uma plateia de publicitários, resumiu o espírito de um Cannes Lions que, segundo vários participantes, trocou as profecias vagas sobre inteligência artificial por um debate mais terra a terra. George Popstefanov, CEO da PMG, notou que “as pessoas estão mais realistas”, enquanto John Rudaizky, diretor de marketing da EY, confessou que a IA ainda lhe parece oferecer “uma ilusão de exatidão”. Um estudo da Havas, divulgado durante o festival, revelou que 84% das marcas sofrem de “indiferença” por parte dos consumidores — um vazio que, na leitura de estrategas criativos, só a centelha humana pode preencher.

A delegação brasileira viveu um festival de contrastes. O país conquistou o Grand Prix na categoria Glass com a campanha “Corpo Preto”, da Artplan para o Instituto Yduqs, que combate vieses raciais e capacitismo na medicina — um projeto que já havia sido premiado em 2025 e que voltou ao palco como símbolo de uma criatividade com lastro social. No cômputo geral, o Brasil somou 62 Leões, uma queda de 35% face ao ano anterior, reflexo de uma retração de 40,6% nas inscrições. Simon Cook, CEO do festival, disse ao Valor Econômico que Cannes “virou a página” da crise de 2025 e que continua a ver o país como uma potência criativa. Enquanto isso, o espaço LATAM Club, montado pela Mercado Ads, reuniu anunciantes e criadores em torno de uma mensagem clara: a velha separação entre construção de marca e performance ruiu. A parceria anunciada com o TikTok, que permite direcionar anúncios a partir dos dados de intenção de compra do ecossistema do Mercado Livre, materializou a promessa de uma rastreabilidade total do funil, da descoberta à conversão.

A partir de Lagos, o publicitário nigeriano Steve Babaeko trouxe uma advertência que ecoou nos corredores do festival. Na sua intervenção no IAA Slam, comparou as ferramentas de IA a automóveis: “Qualquer um pode aprender a conduzir, mas nem todos conduzem como Lewis Hamilton.” Para Babaeko, a democratização da tecnologia não diminuiu o valor do trabalho criativo — apenas tornou mais visível a diferença entre a execução banal e a mestria. “A IA não consegue ler uma sala no trânsito de Lagos”, exemplificou. “Não sente o impacto de um refrão de Afrobeats a cair no momento exato.” Na sua perspetiva, a verdadeira vantagem competitiva reside no julgamento humano, na inteligência cultural e na sensibilidade para a nuance que as máquinas não replicam. Essa visão encontrou paralelo na invasão dos criadores de conteúdo, que este ano tiveram faixas inteiras de programação dedicadas ao marketing de influência. Cindy Gallop, antiga executiva publicitária, descreveu “uma energia completamente nova”, enquanto o youtuber Adam W sublinhou que a chave está na colaboração: “É um encontro a meio caminho entre o que eu quero fazer e o que a marca quer.”

Fora dos holofotes, o empresário Mark Cuban lançou um apelo às grandes empresas de IA: deixem de pagar a celebridades e comecem a ouvir as comunidades, os trabalhadores e os artistas que temem pela sobrevivência dos seus ofícios. “Todos os criativos que conheço estão aterrorizados”, escreveu Cuban, defendendo que as tecnológicas invistam milhares de milhões em programas locais e se sentem frente a frente com quem se sente ameaçado. O recado, duro e direto, contrastava com o brilho dos estandes onde a economia dos criadores exibia o seu músculo — um setor que, só nos Estados Unidos, deverá movimentar 44 mil milhões de dólares em 2026, segundo o Interactive Advertising Bureau. A tensão entre o medo e o fascínio pela IA atravessou todo o festival, mas o gesto mais eloquente talvez tenha vindo da organização: as inscrições para os prémios caíram 25%, depois de um aperto nas regras que exigiu maior verificabilidade dos casos apresentados. No final, o Grand Prix de eficácia criativa foi para a AXA França, pela campanha “Three Words”, que alterou as apólices da seguradora para incluir a expressão “e violência doméstica”. Uma ideia simples, humana, que nenhum algoritmo poderia ter soprado.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 1 idiomas

32%
TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Imprensa atlântica / anglosferaImprensa latino-americana
Imprensa atlântica / anglosfera/ Econômica
PragmatismoDistanciamento

Em Cannes, a conversa mudou do hype da IA para uma avaliação mais realista de suas capacidades. Os profissionais de marketing agora enfatizam o que a IA não consegue fazer, sinalizando um retorno da criatividade humana como força motriz. O festival refletiu uma virada pragmática, com a IA sendo vista como ferramenta, não como substituta.

Imprensa latino-americana/ Mercado
TriunfoPragmatismo

O Brasil reafirmou seu status de potência criativa em Cannes, conquistando um Grand Prix por uma campanha contra o preconceito racial na medicina. Apesar da queda no total de prêmios, a liderança do festival declarou ter virado a página das crises passadas e elogiou a força criativa duradoura do país. O evento também destacou a fusão entre conteúdo e comércio como tendência-chave do setor.

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

No palco de Cannes, a criatividade humana retoma o protagonismo face à inteligência artificial

Entre o cepticismo em relação à IA e a ascensão dos criadores de conteúdo, o festival de publicidade de 2026 revelou uma indústria em busca de autenticidade e impacto cultural.

No auditório do Palais des Festivals, Fernando Machado, diretor de marca da Chipotle, empunhou uma guitarra imaginária. “Usar a IA para escrever um briefing ou escolher uma ideia criativa”, disse, “é como achar que sei tocar guitarra só porque sou bom no ‘Guitar Hero’.” A analogia, aplaudida por uma plateia de publicitários, resumiu o espírito de um Cannes Lions que, segundo vários participantes, trocou as profecias vagas sobre inteligência artificial por um debate mais terra a terra. George Popstefanov, CEO da PMG, notou que “as pessoas estão mais realistas”, enquanto John Rudaizky, diretor de marketing da EY, confessou que a IA ainda lhe parece oferecer “uma ilusão de exatidão”. Um estudo da Havas, divulgado durante o festival, revelou que 84% das marcas sofrem de “indiferença” por parte dos consumidores — um vazio que, na leitura de estrategas criativos, só a centelha humana pode preencher.

A delegação brasileira viveu um festival de contrastes. O país conquistou o Grand Prix na categoria Glass com a campanha “Corpo Preto”, da Artplan para o Instituto Yduqs, que combate vieses raciais e capacitismo na medicina — um projeto que já havia sido premiado em 2025 e que voltou ao palco como símbolo de uma criatividade com lastro social. No cômputo geral, o Brasil somou 62 Leões, uma queda de 35% face ao ano anterior, reflexo de uma retração de 40,6% nas inscrições. Simon Cook, CEO do festival, disse ao Valor Econômico que Cannes “virou a página” da crise de 2025 e que continua a ver o país como uma potência criativa. Enquanto isso, o espaço LATAM Club, montado pela Mercado Ads, reuniu anunciantes e criadores em torno de uma mensagem clara: a velha separação entre construção de marca e performance ruiu. A parceria anunciada com o TikTok, que permite direcionar anúncios a partir dos dados de intenção de compra do ecossistema do Mercado Livre, materializou a promessa de uma rastreabilidade total do funil, da descoberta à conversão.

A partir de Lagos, o publicitário nigeriano Steve Babaeko trouxe uma advertência que ecoou nos corredores do festival. Na sua intervenção no IAA Slam, comparou as ferramentas de IA a automóveis: “Qualquer um pode aprender a conduzir, mas nem todos conduzem como Lewis Hamilton.” Para Babaeko, a democratização da tecnologia não diminuiu o valor do trabalho criativo — apenas tornou mais visível a diferença entre a execução banal e a mestria. “A IA não consegue ler uma sala no trânsito de Lagos”, exemplificou. “Não sente o impacto de um refrão de Afrobeats a cair no momento exato.” Na sua perspetiva, a verdadeira vantagem competitiva reside no julgamento humano, na inteligência cultural e na sensibilidade para a nuance que as máquinas não replicam. Essa visão encontrou paralelo na invasão dos criadores de conteúdo, que este ano tiveram faixas inteiras de programação dedicadas ao marketing de influência. Cindy Gallop, antiga executiva publicitária, descreveu “uma energia completamente nova”, enquanto o youtuber Adam W sublinhou que a chave está na colaboração: “É um encontro a meio caminho entre o que eu quero fazer e o que a marca quer.”

Fora dos holofotes, o empresário Mark Cuban lançou um apelo às grandes empresas de IA: deixem de pagar a celebridades e comecem a ouvir as comunidades, os trabalhadores e os artistas que temem pela sobrevivência dos seus ofícios. “Todos os criativos que conheço estão aterrorizados”, escreveu Cuban, defendendo que as tecnológicas invistam milhares de milhões em programas locais e se sentem frente a frente com quem se sente ameaçado. O recado, duro e direto, contrastava com o brilho dos estandes onde a economia dos criadores exibia o seu músculo — um setor que, só nos Estados Unidos, deverá movimentar 44 mil milhões de dólares em 2026, segundo o Interactive Advertising Bureau. A tensão entre o medo e o fascínio pela IA atravessou todo o festival, mas o gesto mais eloquente talvez tenha vindo da organização: as inscrições para os prémios caíram 25%, depois de um aperto nas regras que exigiu maior verificabilidade dos casos apresentados. No final, o Grand Prix de eficácia criativa foi para a AXA França, pela campanha “Three Words”, que alterou as apólices da seguradora para incluir a expressão “e violência doméstica”. Uma ideia simples, humana, que nenhum algoritmo poderia ter soprado.

Divergência das fontes

Mídia e Entretenimento · 2 veículos · 1 idioma

32%Média

Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

Favorável80%
Crítico20%

Como a mesma história é contada em outros lugares.

2 grupos editoriais · 1 idiomas

TomTemperaturaFocoPosicionamentoHorizonte
Imprensa atlântica / anglosferaImprensa latino-americana
Imprensa atlântica / anglosfera/ Econômica
PragmatismoDistanciamento

Em Cannes, a conversa mudou do hype da IA para uma avaliação mais realista de suas capacidades. Os profissionais de marketing agora enfatizam o que a IA não consegue fazer, sinalizando um retorno da criatividade humana como força motriz. O festival refletiu uma virada pragmática, com a IA sendo vista como ferramenta, não como substituta.

Imprensa latino-americana/ Mercado
TriunfoPragmatismo

O Brasil reafirmou seu status de potência criativa em Cannes, conquistando um Grand Prix por uma campanha contra o preconceito racial na medicina. Apesar da queda no total de prêmios, a liderança do festival declarou ter virado a página das crises passadas e elogiou a força criativa duradoura do país. O evento também destacou a fusão entre conteúdo e comércio como tendência-chave do setor.

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