
Entre a celebração da cultura e a polémica do elenco: o paradoxo de Hollywood e o triunfo de 'Michael'
Enquanto 'Moana' é exaltada por honrar tradições polinésias, 'The Odyssey' enfrenta críticas por falta de autenticidade grega, e o biopic de Michael Jackson ultrapassa os mil milhões de dólares, reescrevendo a história do cinema.
Na manhã de uma sexta-feira de verão, a conta oficial da Variety na rede social X publicou uma ligação para um artigo com uma frase que se tornaria emblemática: «Porque é que a representação é importante no filme live-action de 'Moana'». A publicação celebrava o trabalho meticuloso de artesãos, consultores e especialistas que, segundo a revista, garantiram que as tatuagens māori, as danças e as tradições polinésias fossem retratadas com respeito. Quase em simultâneo, noutro quadrante da indústria, o realizador Christopher Nolan via a sua adaptação de 'The Odyssey' ser alvo de uma vaga de críticas. A escolha de Elliot Page para um soldado grego, de Lupita Nyong'o para Helena de Troia e de Zendaya para a deusa Atena — num elenco sem atores de ascendência grega nos papéis principais —, a par de armaduras e navios historicamente imprecisos, gerou acusações de desrespeito pela cultura helénica. O contraste entre os dois casos expôs, na perspetiva de analistas norte-americanos, uma fratura na forma como Hollywood negocia as exigências de autenticidade.
No centro deste debate, um fenómeno de bilheteira alheio à polémica reescrevia os manuais da indústria. 'Michael', o biopic sobre Michael Jackson realizado por Antoine Fuqua, tornou-se o primeiro filme do género a ultrapassar a barreira dos mil milhões de dólares em receitas globais. Com 371,8 milhões provenientes dos Estados Unidos e do Canadá e 629,8 milhões dos mercados internacionais, o filme totalizou 1.001 milhões de dólares, destronando 'Bohemian Rhapsody' (911 milhões) como a biografia musical mais rentável de sempre e superando 'Oppenheimer' (975 milhões) enquanto adaptação de uma história real com maior receita. Para o estúdio Lionsgate, tratou-se do primeiro título a entrar no clube dos mil milhões, deixando para trás os 865 milhões de 'The Hunger Games: Catching Fire'.
A trajetória de 'Michael' contrasta com a receção inicial. Estreado em abril, o filme enfrentou críticas mistas e controvérsias de bastidores, incluindo a reescrita de partes do argumento e a remoção de cenas relacionadas com acusações polémicas. No entanto, o boca-a-boca positivo e o regresso repetido do público às salas sustentaram a sua dominância durante o verão. Na perspetiva de observadores em Moscovo e Tóquio, onde o filme se destacou como um dos mercados internacionais mais fortes, o apelo residiu tanto no legado musical intemporal de Jackson como na interpretação do seu sobrinho, Jaafar Jackson, que se estreou no cinema capturando os gestos e a presença cénica do tio. A crítica especializada, ainda que dividida, reconheceu o trabalho de preparação do jovem ator, que dedicou meses ao treino de representação, canto e coreografia.
Enquanto 'Michael' colhia os frutos de uma ligação emocional com o público, o debate sobre representação ganhava novos contornos. A versão live-action de 'Moana', estreada com um orçamento de 250 milhões de dólares, arrecadou apenas 43 milhões no mercado doméstico no fim de semana de estreia, ficando aquém das projeções de Disney. Apesar do empenho na fidelidade cultural, o filme pareceu sofrer com a proximidade temporal do original animado de 2016 e da sua sequela, diluindo o efeito nostalgia. Já 'The Odyssey', ainda em produção, via crescer um coro de vozes que, sobretudo a partir da imprensa conservadora norte-americana, apontavam a incoerência de se exigir autenticidade para umas narrativas e não para outras. A discussão ecoou em fóruns de língua portuguesa, onde se recordou o cuidado que a Disney teve com 'Moana' e se questionou a aparente licença criativa de Nolan.
No final, a imagem que perdura é a de um sobrinho a calçar as luvas brilhantes do tio, num gesto que é ao mesmo tempo homenagem e reinvenção. O sucesso de 'Michael' já levou a Lionsgate a planear uma sequela, enquanto 'Moana' tenta navegar águas comerciais agitadas e 'The Odyssey' se prepara para enfrentar o escrutínio de um público cada vez mais atento às escolhas de representação. A história recente de Hollywood escreve-se, assim, entre o aplauso à fidelidade cultural, a polémica do elenco e a força imparável de um mito pop.
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Michael Jackson quebrou todos os recordes, provando que seu legado é atemporal.
Ao converter o valor de bilheteria para moeda local e compará-lo com outros biopics, a conquista se torna tangível e competitiva, reforçando a narrativa de um ícone imparável.
Omite a recepção crítica e o fato de que este é o segundo filme a atingir US$ 1 bilhão em 2026.
O filme ganhou um bilhão apesar das críticas negativas, provando que o público pensa diferente.
Ao justapor as críticas negativas ao sucesso de bilheteria, constrói-se a narrativa de um triunfo popular sobre a opinião das elites, fazendo com que a conquista pareça uma reivindicação do gosto do público.
Omite o tom celebratório e a discriminação específica das receitas domésticas e internacionais, bem como o fato de ser o primeiro biopic a atingir US$ 1 bilhão.
Michael Jackson conquistou um novo palco: a bilheteria global, provando que sua grandeza não tem limites.
Ao usar a metáfora icônica do 'moonwalk' e uma linguagem superlativa, a conquista é apresentada como uma continuação natural e inevitável de seu status lendário, fazendo o recorde parecer quase predestinado.
Omite qualquer perspectiva crítica e o fato de que os críticos detonaram o filme, bem como a discriminação específica dos mercados.
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