
Irã estreia no Mundial em Los Angeles sob a sombra da guerra e da paz
Após meses de conflito, a seleção iraniana aterrissou horas antes do anúncio de cessar-fogo, enquanto protestos e divisões na diáspora marcam o jogo contra a Nova Zelândia.
A seleção iraniana aterrissou em Los Angeles no domingo, 14 de junho, poucas horas antes de o presidente Donald Trump anunciar um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã, pondo fim a meses de conflito militar no Estreito de Ormuz. A aeronave que partira de Tijuana, no México, tocou o solo norte-americano às 16h11 locais, sob forte aparato de segurança. O desembarque encerrava um périplo diplomático e logístico que pusera em dúvida a própria participação do Team Melli no Mundial de 2026, coorganizado por um país com o qual Teerã estava em guerra desde fevereiro.
O conflito obrigara a federação iraniana a transferir às pressas o centro de treinos de Tucson, Arizona, para Tijuana, já que Washington negara vistos a membros da comitiva, incluindo auxiliares técnicos. Cada deslocamento para os jogos da fase de grupos – todos em solo americano – exige voos transfronteiriços, desgastando jogadores e comissão. A imprensa europeia registou que a tensão diplomática minou a habitual alegria da Copa: o capitão Mehdi Taremi queixou-se de que ninguém lhe perguntara sobre futebol na conferência de véspera, apenas sobre política, e o técnico Amir Ghalenoei admitiu que as condições afetam o espírito da equipa.
Do lado de fora do hotel em Manhattan Beach, a comunidade iraniana de Los Angeles – a maior diáspora do país, apelidada de “Tehrangeles” – mobilizou-se. Alguns planeavam torcer no estádio; outros, protestar com bandeiras do leão e sol pré-Revolução Islâmica, em repúdio ao regime de Teerã. Jornais do Golfo Pérsico e de língua árabe destacaram divisões profundas entre exilados, enquanto veículos de Israel e da Ásia Meridional sublinhavam o simbolismo de um país em guerra a jogar no coração do adversário.
A estreia contra a Nova Zelândia, às 22h de Brasília (02h00 de Lisboa) no SoFi Stadium, será atípica: estima-se que cerca de 65 mil ingressos tenham sido adquiridos por iranianos ou descendentes, contra escassos 5 mil neozelandeses. A partida, transmitida no Brasil pela CazéTV e em Portugal por canais oficiais, coloca frente a frente um Irã veterano na sua sétima participação e uma seleção oceânica pouco rodada. Observadores em Lisboa e no Rio de Janeiro notam que os asiáticos partem favoritos, ancorados na experiência do avançado Taremi.
O acordo de paz pode aliviar o clima, mas as feridas da guerra e da repressão interna dificilmente cicatrizarão com o apito final. A FIFA, pressionada a despolitizar o torneio, vê-se confrontada com um futebol que serve de palco a tensões globais. Para além do Grupo G, que inclui Bélgica e Egito, a participação iraniana testa a capacidade do desporto em promover encontros – ou em amplificar divisões – num mundo multipolar cada vez mais belicista.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A seleção iraniana desembarcou em Los Angeles sob um humilhante cerco de segurança —barreiras policiais, vigilância por drones— que escancarou a hostilidade americana. A alegada boa vontade de Washington é desmentida pelo tratamento obstrutivo, gerando forte indignação na imprensa de Teerã. Apesar disso, a presença da equipe é celebrada como um gesto desafiador de orgulho nacional.
Com o anúncio do acordo de paz horas antes, a chegada do Irã a Los Angeles transforma a narrativa de guerra em esporte. O fim das hostilidades permite ao time concentrar-se no futebol, um alívio pragmático saudado pelos analistas israelenses. O treinador declarou sua felicidade em representar uma nação orgulhosa, insinuando que o torneio pode deixar para trás os conflitos recentes.
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