
IA assume papel de confidente e conselheiro de compras, transformando comunicação e consumo
Plataformas de inteligência artificial generativa registam crescimento de 700% em aplicações de companhia e 76% dos brasileiros pretendem usá-las para decidir compras, alterando a forma como se procura apoio emocional e se descobre produtos.
A utilização de inteligência artificial generativa como interface primária para apoio emocional e decisões de consumo atinge marcos que alteram o comportamento digital. Dados do Bipartisan Policy Center, citados por analistas do Sudeste Asiático, apontam um crescimento de cerca de 700% nas aplicações de IA de companhia entre 2022 e meados de 2025. Em simultâneo, um estudo da Visa divulgado no Brasil indica que 76% dos consumidores brasileiros pretendem recorrer a estas ferramentas para fazer compras, enquanto 52% já as utilizaram nos últimos doze meses para apoiar decisões de aquisição, segundo o Relatório do Varejo 2025 da Adyen. A escala do fenómeno reflete-se ainda nos 900 milhões de utilizadores ativos semanais do ChatGPT, uma parte significativa dos quais consulta a plataforma sobre saúde mental.
A mudança assenta na passagem de uma lógica transacional para uma dinâmica conversacional contínua. Em vez de pesquisas pontuais, os utilizadores envolvem-se em diálogos prolongados com agentes de IA que, através de técnicas como a engenharia de ciclos (loop engineering), atuam como conselheiros de bem-estar ou vendedores especializados. Observadores nos Estados Unidos descrevem esta abordagem como uma evolução do modelo “pergunta-resposta” para um acompanhamento relacional focado em objetivos mais amplos. No consumo, o conceito de shopping conversacional ganha força: a navegação, a comparação e o checkout são substituídos por uma experiência conduzida por IA em formato de diálogo, simplificando a jornada de compra. Dados da Comscore de 2026 mostram que as ferramentas de IA já alcançam 36% dos utilizadores de desktop e 23% dos utilizadores móveis, sinalizando uma migração do motor de busca tradicional para as respostas geradas por plataformas como ChatGPT e Gemini.
Os impactos setoriais revelam desafios estruturais distintos. Na saúde, a adoção de IA para apoio emocional expõe a fragilidade dos sistemas de informação. Na perspetiva de Estocolmo, o principal obstáculo não é a tecnologia, mas a falta de interoperabilidade: os dados dos doentes permanecem encerrados em sistemas monolíticos que não comunicam entre si, impedindo que a IA aceda à informação necessária para ser clinicamente útil. Especialistas suecos sublinham que o Regulamento Geral de Proteção de Dados não trava a partilha, mas sim a ausência de requisitos claros e vinculativos para a abertura de APIs. No retalho brasileiro, o desafio equivalente está na organização de dados. A hiperpersonalização que o comércio conversacional exige depende de ecossistemas de informação integrados, algo que muitos retalhistas ainda não possuem, limitando a eficácia das recomendações automatizadas. Paralelamente, a utilização de chatbots como confidentes levanta questões sobre a erosão das competências de comunicação interpessoal, num contexto em que, segundo a Brookings Institution, o número de adultos norte-americanos com dez ou mais amigos próximos continua a diminuir.
O próximo passo prático centra-se em decisões políticas e de infraestrutura. No setor da saúde, a pressão recai sobre a criação de normas que exijam sistemas modulares e abertos, permitindo que a IA opere com dados clínicos reais de forma segura e escalável. No comércio digital, a prioridade é a estruturação das bases de dados dos retalhistas para que a compra dentro da conversa se torne viável em larga escala. A acompanhar, o desenvolvimento de modelos de linguagem especializados em saúde mental ainda se encontra em fase de teste, sem aprovação clínica generalizada, enquanto as marcas disputam os primeiros lugares nas respostas das IAs, num ambiente em que a qualidade da apresentação visual se torna fator de diferenciação.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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