
Gritos de '160 mil crianças, o que fazem?' ecoam em 110 cidades francesas contra violência sexual
Após estupro e assassinato de menina de 11 anos, sociedade civil francesa organiza marchas históricas e pressiona por reforma judicial diante de 94% de arquivamento de queixas.
Com o sol a pino sobre Paris, milhares de vozes entoavam 'A verdade sai da boca das crianças!' no último sábado, enquanto uma maré humana avançava da Praça da Bastilha em direção à Place de la Nation. Famílias inteiras, muitas com filhos pequenos, seguravam cartazes com os dizeres '160 mil crianças, o que fazem?'. Entre a multidão, a estudante de 17 anos Eline contou que, ao denunciar um estupro este ano, ouviu de um agente: 'Isso não é violação, pode arruinar a vida desse homem'. O seu testemunho, reproduzido pela imprensa francesa e internacional, materializou a revolta que tomou 110 cidades do país – de Dijon, no leste, a Toulouse, no sul – numa mobilização que os organizadores classificaram de 'histórica'.
A centelha foi o caso de Lyhanna, uma menina de 11 anos encontrada morta em junho na comuna de Fleurance, no sudoeste da França. O principal suspeito, pai de uma amiga da escola da vítima, já havia sido formalmente acusado de violação de uma criança por duas vezes, mas ambas as investigações foram arquivadas ou estagnaram. Perante a indignação generalizada, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, recusou demitir-se, pedindo desculpas pelo que classificou de 'falha colossal'. O presidente Emmanuel Macron, por sua vez, manifestou temor de que a confiança nas instituições fosse abalada pelos erros na investigação.
No centro dos protestos está a exigência de uma 'lei-quadro integral' contra as violências sexuais, defendida por uma coligação de 180 associações feministas e de defesa das crianças. Inspirada no modelo espanhol, a proposta prevê 140 medidas que vão da prevenção ao acompanhamento das vítimas, incluindo as mais vulneráveis. Uma proposição de lei com 78 medidas, da deputada socialista Céline Thiébault-Martinez, foi subscrita por uma centena de parlamentares e deverá ser debatida no outono. Entretanto, o governo anunciou ações contra a pedocriminalidade, mas as associações temem que as medidas sejam diluídas.
A mobilização ganhou amplitude à medida que se sucedem revelações noutros casos, como os que envolvem o cantor Bruel e um funcionário de atividades extraescolares parisiense. A coligação, que já reúne 160 organizações – incluindo centrais sindicais e coletivos de pais –, organiza vigílias semanais em frente a tribunais regionais e ao Ministério da Justiça. Uma petição online já recolheu mais de 340 mil assinaturas. Na perspetiva de analistas franceses, o movimento traduz uma convergência inédita entre feminismo e defesa dos menores, ampliando a base para além dos círculos militantes tradicionais.
O coro 'Darmanin, meios!' que se ouviu nas ruas ecoa uma estatística que condensa a frustração: 94% das queixas de violação em França são arquivadas sem qualquer seguimento. Um relatório governamental de 2022 já alertava que, em 70% dos casos, após ouvir o suspeito, os investigadores não procuravam provas materiais em telemóveis ou computadores. Na Suécia, o diário Aftonbladet sublinhou a dimensão dos protestos, enquanto no Golfo o Gulf News destacou o pedido de uma lei abrangente. Para o leitor lusófono, o clamor francês ressoa como um espelho de realidades próximas – do Brasil a Portugal, onde os índices de violência sexual infantil são igualmente alarmantes e a impunidade persiste. A imagem que perdura é a de Eline, de 17 anos, repetindo em voz alta aquilo que um agente não quis ouvir.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Mass protests across 110 French cities condemn judicial impunity following Lyhanna's murder. Focus on Justice Minister's alleged failure to act on prior rape accusations. Popular anger demands immediate justice and reforms.
Feminist and child protection associations lead a national march demanding a comprehensive law against sexual violence, using Lyhanna's case to push for structural reforms from prevention to judicial treatment. The 'enfantism' movement emerges as a new political sensibility.
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