
EUA acenam com Mundial de 2038 enquanto torcedores enfrentam choques culturais e novas narrativas
Da candidatura surpresa à cultura das gorjetas, o Mundial de 2026 revela tensões e transformações que vão além dos relvados, com impacto sentido também por adeptos lusófonos.
Ainda antes do apito final da edição de 2026, os Estados Unidos já sinalizam a intenção de receber o Mundial de 2038. Andrew Gilliano, diretor-executivo da task force da Casa Branca para o torneio, afirmou que o país tem capacidade para organizar sozinho uma competição que a FIFA estuda expandir para 64 seleções. A declaração surge num contexto em que 78 dos 104 jogos do atual Mundial decorrem em solo norte-americano, e após a confirmação de que as edições de 2030 (Espanha, Portugal, Marrocos, com aberturas na América do Sul) e 2034 (Arábia Saudita) já têm sedes definidas. Na perspetiva de Brasília, a eventual candidatura dos EUA é observada com atenção, uma vez que o país se consolida como parceiro estratégico da FIFA — a entidade transferiu recentemente o seu departamento jurídico de Zurique para a Florida — e dispõe de estádios e infraestruturas já construídos, o que, segundo Gilliano, reduziu os custos organizativos a “poucos milhares de milhões de dólares”, em contraste com os investimentos de outros anfitriões.
O quotidiano dos adeptos que viajam pelo país, porém, expõe um choque cultural que ecoa entre os milhares de visitantes internacionais. Europeus, japoneses e australianos relataram à BBC e à Meduza a surpresa com a cultura de gorjetas nos Estados Unidos, onde funcionários de bares e restaurantes recebem salários-base de pouco mais de dois dólares por hora e esperam que os clientes acrescentem cerca de 20% à conta. “Pedem gorjeta por uma garrafa de água, sem fazer nada”, queixou-se o inglês Geoff Pryor. Para torcedores brasileiros, portugueses e de países africanos de língua oficial portuguesa, habituados a taxas de serviço incluídas ou a gratificações modestas, o impacto é semelhante. A perceção de que os preços já são elevados — bilhetes a partir de 400 dólares, cerveja a 20 dólares no estádio e alojamento escasso — agrava a frustração, enquanto proprietários de estabelecimentos em Nova Iorque e Atlanta defendem que, sem gorjetas, “é impossível sobreviver no setor”.
Fora do campo financeiro, o Mundial tem sido palco de gestos que ampliam o significado da competição. Em Vancouver, a associação de adeptos do Canadá mobilizou milhares de cartazes com o número 8 em homenagem a Ismaël Koné, médio que sofreu uma fratura na perna esquerda e foi operado após o jogo com o Catar. A iniciativa, noticiada pelo Al Ittihad, transformou as bancadas do BC Place numa mensagem de apoio que transcendeu a derrota por 2-1 frente à Suíça e a inédita qualificação canadiana para os dezasseis avos de final. Na mesma linha, o alemão que percorreu 26 mil quilómetros de bicicleta desde a Europa até Houston, vestindo uma camisola metade Alemanha, metade Karlsruher SC, ilustra a dimensão pessoal que o torneio assume para muitos.
Paralelamente, o Mundial de 2026 consolida uma nova indústria de conteúdos digitais que rivaliza com as transmissões televisivas tradicionais. O diário argentino La Nación descreve como criadores amadores e profissionais, munidos de selfies, vídeos virais e até imagens geradas por inteligência artificial, ocupam o centro do entretenimento complementar ao futebol. A economia dos criadores, impulsionada por plataformas como YouTube e TikTok, encontrou no evento ao vivo a montra híbrida ideal, com audiências que já superam as da Netflix em consumo diário. Para observadores em Lisboa e São Paulo, o fenómeno reflete uma mudança global: a televisão como aparelho venceu os canais lineares, e cada pausa — da cama ao sofá — se tornou oportunidade de consumo de conteúdo.
Enquanto o torneio avança, a combinação de ambição organizativa, tensões culturais e novas narrativas digitais desenha um Mundial que é, ao mesmo tempo, laboratório para o futuro da FIFA e espelho das contradições do país anfitrião. A eventual candidatura a 2038, a confirmar-se, terá de lidar com as críticas atuais — dos preços dos bilhetes às restrições de vistos —, mas parte da convicção, expressa por Gilliano, de que “nenhum país está mais bem preparado” para receber o evento. A próxima etapa concreta será o encerramento da edição de 2026, após o qual o processo formal de candidatura para 2038 poderá começar.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Copa do Mundo nos Estados Unidos torna-se uma vitrine da hospitalidade americana, recebida com entusiasmo pelos torcedores alemães. Um adepto relata uma viagem épica de bicicleta de 26.000 quilómetros através de três continentes para chegar ao estádio, destacando o acolhimento excecionalmente caloroso. A narrativa coloca em primeiro plano a aventura pessoal e o ambiente positivo, deixando qualquer controvérsia em segundo plano.
Os adeptos internacionais que visitam os EUA para o Mundial manifestam frustração com uma cultura de gorjetas que consideram confusa e dispendiosa. Muitos acham estranho ser-lhes pedida uma gorjeta até na compra de uma garrafa de água, sentindo-se pressionados a pagar por um serviço inexistente. A história destaca um choque cultural que pesa na experiência dos visitantes, sobretudo para quem não está habituado a tais práticas.
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