
Dieta e estilo de vida podem prevenir quase metade dos casos de demência, mas mudar hábitos segue como desafio
Estudos recentes reforçam o papel protetor de padrões alimentares vegetais contra doenças crônicas, mas campanhas de conscientização isoladas mostram-se insuficientes para alterar comportamentos.
Cerca de 45% dos casos de demência no mundo poderiam ser prevenidos ou retardados com a eliminação de fatores de risco modificáveis, como hipertensão, obesidade, tabagismo e isolamento social. A conclusão, baseada numa revisão sistemática publicada nas revistas The Lancet Healthy Longevity e Clinical Nutrition, expõe, porém, um obstáculo persistente: as campanhas de informação em oito países analisados elevaram marginalmente o conhecimento da população, mas raramente produziram mudanças duradouras de comportamento. Em paralelo, um estudo observacional com quase 500 mil adultos acompanhados por mais de uma década revelou que o maior risco de demência estava associado à obesidade sarcopénica — a combinação de baixa força muscular e excesso de tecido adiposo —, enquanto a obesidade isolada, com força preservada, não aumentava esse risco.
O mecanismo comum que liga dieta e saúde cerebral, renal e hepática parece residir na redução da inflamação sistémica e do stress oxidativo. Investigadores da Universidade Médica do Sul, na China, ao analisarem dados de 179.508 participantes do UK Biobank, identificaram que uma maior adesão à dieta EAT-Lancet — rica em hortaliças, frutas, cereais integrais e leguminosas, com moderação de proteína animal — estava associada a um menor risco de doença renal crónica; 20% desse efeito protetor foi atribuído a alterações metabólicas anti-inflamatórias. Na mesma linha, um estudo com ratinhos conduzido pela Universidade do Sul da Califórnia e publicado na Cell Metabolism mostrou que uma dieta hipoproteica de base vegetal, complementada com pescado e com baixo teor do aminoácido metionina, prolongou a esperança de vida saudável, reduziu a gordura corporal e preservou a massa muscular, mesmo sem restrição calórica. Dados de mais de 200 mil pessoas, analisados em colaboração com as universidades de Toronto e Harvard, reforçaram que o consumo elevado de proteína animal duplicava o risco de diabetes tipo 2.
Especialistas na Argentina e na Indonésia acrescentam peças a este quadro. O cardiologista Jorge Tartaglione, em Buenos Aires, sublinha que a dieta mediterrânica, rica em antioxidantes, fibra e ómega-3, é a mais eficaz para o tratamento do fígado gordo, condição que afeta um em cada três argentinos e eleva o risco cardiovascular. Já nutricionistas em Jacarta apontam que o consumo regular de chá verde após o jantar, graças às catequinas, pode apoiar moderadamente o metabolismo do colesterol LDL, sobretudo ao substituir bebidas açucaradas. Na Suécia, o professor Robert Brummer, da Universidade de Örebro, recorda que a saúde intestinal, modulada por fibras, antioxidantes e probióticos, influencia diretamente a produção de serotonina e o bem-estar mental, embora alerte que muitos suplementos probióticos no mercado carecem de evidência robusta.
Apesar da convergência científica, a transposição para a prática clínica e para as políticas públicas permanece o nó crítico. A revisão australiana sobre prevenção da demência concluiu que são necessários programas personalizados, com avaliação individual de risco e apoio de profissionais locais, para que a consciência dos fatores de proteção se traduza em mudança efetiva de estilo de vida. No Brasil, onde se estima que 7% a 10% dos adultos tenham algum grau de comprometimento renal frequentemente não diagnosticado, e em Portugal, com perfis de envelhecimento semelhantes, a adoção de padrões alimentares como a dieta planetária EAT-Lancet — que privilegia vegetais e leguminosas e reduz a carne vermelha — é apontada como via simultânea de prevenção de doenças crónicas e de sustentabilidade ambiental. O próximo marco a observar será a capacidade dos sistemas de saúde de integrar estas evidências em intervenções comunitárias estruturadas, superando a mera divulgação de informação.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A pesquisa confirma que muitas doenças crônicas podem ser prevenidas com dieta e estilo de vida, mas o verdadeiro desafio é mudar hábitos arraigados. Apesar das evidências científicas, as campanhas de conscientização por si só não são suficientes para gerar mudanças comportamentais duradouras.
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