
Crise financeira da ONU agrava resposta a crises humanitárias em Gaza e no Sudão
Com regras orçamentais alteradas para evitar colapso, agências alertam para rutura na ajuda a refugiados palestinianos e para crimes contra a humanidade em Darfur.
As Nações Unidas aprovaram uma alteração regulamentar que impede, durante os próximos quatro anos, a devolução de fundos não utilizados aos Estados-membros que estejam em atraso nos pagamentos, numa tentativa de conter o «colapso financeiro» da organização. Segundo o subsecretário-geral para a gestão, Chandramouli Ramanathan, a liquidez esgotar-se-á em agosto e as operações além de setembro dependem de donativos. De acordo com relatórios internos citados por diplomatas em Nova Iorque, os Estados Unidos devem cerca de 4,3 mil milhões de dólares e a China mais de 1,3 mil milhões, o que representa mais de metade do défice acumulado. A medida, aprovada na terça-feira, permitirá poupar centenas de milhões de dólares anuais, mas não resolve a crise estrutural de financiamento que já obrigou a cortes de pessoal e à redução de atividades em várias sedes.
O impacto da escassez de fundos é particularmente visível na Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA). O secretário-geral, António Guterres, advertiu que a agência está «à beira do colapso» e que um défice de 100 milhões de dólares ameaça a sobrevivência de milhões de refugiados. Na perspetiva de observadores europeus, a pressão financeira é agravada por campanhas de descrédito e restrições operacionais impostas por Israel, que acusa a UNRWA de parcialidade política e de envolvimento de funcionários no ataque de 7 de outubro de 2023. Guterres denunciou «esforços contínuos para marginalizar e minar» a agência, incluindo «campanhas de desinformação, ações legislativas e obstáculos diplomáticos».
Em paralelo, a crise humanitária no Sudão atinge níveis que organizações de direitos humanos classificam como crimes contra a humanidade. Um relatório da Amnistia Internacional, baseado em 247 entrevistas e análise de imagens de satélite, conclui que as Forças de Apoio Rápido (RSF) cometeram limpeza étnica e perseguição contra comunidades não-árabes durante a tomada de El-Fasher, no Darfur, entre 2024 e 2025. A organização documentou execuções, violações, escravatura sexual e recrutamento forçado de crianças, e identificou três comandantes como responsáveis por violações do direito internacional. As RSF negam as acusações, mas uma missão independente da ONU já apontara «indícios de genocídio» em fevereiro. Ao mesmo tempo, um surto de cólera já matou 120 pessoas e regista mais de 1.100 casos suspeitos desde maio, numa terceira vaga que a Organização Mundial da Saúde atribui à destruição do sistema de saúde e à falta de acesso a água potável.
A degradação da situação no Sudão levou um grupo de países europeus — Alemanha, Irlanda, Países Baixos, Noruega e Reino Unido — a convocar uma reunião urgente do Conselho de Direitos Humanos da ONU para debater o risco de atrocidades em grande escala em El-Obeid, onde cerca de 500 mil civis estão sitiados. Analistas em Adis Abeba notam que o prolongamento do conflito é alimentado por uma economia de guerra que movimenta cerca de quatro mil milhões de dólares anuais, sustentada por contrabando de ouro, rotas regionais de abastecimento e, segundo investigações da Reuters e da Bloomberg, pelo fornecimento de drones iranianos ao exército sudanês. A reunião do Conselho de Direitos Humanos deverá realizar-se nos próximos dias e incluirá a apresentação de um projeto de resolução, enquanto a ONU tenta mobilizar fundos para evitar a paralisação total das suas operações humanitárias.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A ONU alterou as regras orçamentais para evitar um incumprimento iminente, enquanto os cofres se esvaziam e se aguardam donativos. Os Estados Unidos e a China, os maiores contribuintes, acumularam milhares de milhões em atrasos, forçando a organização a sobreviver com recursos mínimos até setembro. A situação continua precária, mas o colapso financeiro foi temporariamente evitado.
A Amnistia Internacional acusa as Forças de Apoio Rápido do Sudão de crimes contra a humanidade e limpeza étnica durante o ataque a el-Fasher. O relatório documenta assassinatos, violações, escravatura sexual e violência dirigida contra crianças, classificando o cerco como um dos capítulos mais sangrentos da guerra civil. A organização exige responsabilização por estas atrocidades.
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