
Ataque russo com 570 drones e mísseis mata 30 em Kiev e reacende debate sobre defesa aérea
Ofensiva, a maior em meses, ocorre após período de redução de ataques e às vésperas de cimeira da NATO, enquanto Kiev pede sistemas Patriot.
A capital ucraniana foi alvo, na madrugada de quinta-feira, do ataque aéreo mais massivo desde o início da invasão em larga escala, segundo o presidente da câmara de Kiev. Pelo menos 30 civis morreram e mais de 90 ficaram feridos, de acordo com as autoridades locais, num bombardeamento que envolveu cerca de 570 drones e mísseis, incluindo munições balísticas e de cruzeiro. A ofensiva durou várias horas, danificou cerca de 130 edifícios — entre eles um prédio residencial de nove andares que colapsou, uma estação de ambulâncias e um armazém da Cruz Vermelha — e levou a autarquia a decretar um dia de luto. As defesas aéreas ucranianas abateram 48 dos 74 mísseis e 476 dos 496 drones, uma taxa de interceção elevada que, ainda assim, não impediu os impactos em mais de três dezenas de locais.
Moscovo justificou a operação como retaliação por recentes ataques ucranianos a infraestruturas energéticas em território russo, afirmando ter visado exclusivamente alvos militares, instalações de energia e aeródromos. Kiev, por seu lado, sublinhou que a maioria dos danos ocorreu em zonas residenciais e civis, e o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos classificou o ataque como “horrível”, um dos mais letais contra a capital desde fevereiro de 2022. Na perspetiva de Washington, o presidente Donald Trump reiterou a necessidade de pôr fim imediato ao conflito para travar a “morte sem sentido”, enquanto a NATO, reunida em Ancara poucos dias depois, discutia um novo pacote de ajuda militar a Kiev avaliado em 70 mil milhões de euros até ao próximo ano.
Analistas de defesa na Europa do Norte e um centro de estudos estratégicos sediado em Washington apontam que a dimensão do ataque pode refletir uma alteração na estratégia russa. Após um mês com menos ofensivas aéreas de grande escala, a hipótese de Moscovo estar a acumular reservas de drones para desferir golpes mais potentes em momentos escolhidos ganhou força. O professor Hans Liwång, da Universidade de Defesa da Suécia, considera que a redução temporária serviu para “garantir ataques mais vigorosos mais tarde”, uma leitura partilhada por responsáveis ucranianos, que veem na cadência dos bombardeamentos uma tentativa de maximizar o impacto psicológico e mediático. Outra possibilidade, menos consensual, prende-se com ajustamentos na produção de drones, incluindo a dispersão das linhas de montagem e a introdução de modelos com motores a jato, mais difíceis de abater.
O ataque ocorre num momento em que a Ucrânia intensificou as suas próprias incursões com drones contra alvos na retaguarda russa, incluindo pontes de acesso à Crimeia ocupada, com o objetivo declarado de isolar a península. Apesar do crescimento da capacidade ofensiva de Kiev — que passou de cerca de 10 drones por noite para vagas de 200 ou 300 —, a desproporção face ao arsenal russo permanece acentuada, com Moscovo a conseguir lançar até 800 engenhos numa única noite. Perante este cenário, o presidente Volodymyr Zelensky voltou a insistir na prioridade absoluta do reforço antiaéreo, em particular na obtenção de licenças norte-americanas para a produção de sistemas Patriot e outras formas de cooperação. A próxima cimeira da NATO e as negociações bilaterais com Washington são apontadas como os palcos imediatos para eventuais decisões sobre o envio de mais sistemas antibalísticos.
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