
Às vésperas da cimeira de Ancara, NATO enfrenta fraturas e Canadá propõe banco de defesa
Divergências sobre gastos militares e missão no Estreito de Ormuz ameaçam a unidade da Aliança, enquanto Ottawa procura anunciar um novo mecanismo de financiamento multilateral.
A quatro dias da cimeira de Ancara, a NATO enfrenta um dos momentos de maior tensão interna desde a invasão russa da Ucrânia, com duas fraturas expostas: a exigência de Washington de que todos os aliados elevem a despesa militar para 5% do PIB e a pressão por uma missão naval no Estreito de Ormuz para garantir a liberdade de navegação, num contexto de conflito armado entre os Estados Unidos e o Irão. O secretário-geral, Mark Rutte, tenta conter os danos com uma ofensiva diplomática que incluiu lembrar ao público norte-americano que os aliados cederam bases para as operações no Irão e que os investimentos europeus na indústria de defesa sustentam empregos nos EUA.
Na perspetiva de várias capitais europeias, a pressão da Casa Branca colide com resistências orçamentais e com a relutância em participar numa missão no Golfo Pérsico antes do fim formal das hostilidades. É neste cenário que o Canadá procura anunciar, durante a cimeira, a criação do Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB), uma instituição multilateral que pretende mobilizar até 100 mil milhões de libras em financiamento de baixo custo para projetos de defesa e infraestruturas militares. A iniciativa, promovida pelo primeiro-ministro Mark Carney como parte de uma aliança de “potências médias”, deverá contar com cerca de dez membros fundadores, na sua maioria europeus, e reflete, segundo analistas em Ottawa, uma tentativa de reduzir a dependência estratégica em relação a Washington.
A cimeira decorre sob o impacto de um ataque russo com mísseis e drones que matou pelo menos 21 civis em Kiev, horas antes do encontro, sublinhando a pressão securitária sobre o flanco oriental. Em paralelo, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, afirmou que a Europa “deve assumir uma maior responsabilidade pela própria segurança”, enquanto o ministro da Defesa italiano, Guido Crosetto, abriu a porta a uma nova missão de imposição da paz no Líbano, em substituição da UNIFIL, com o objetivo de desarmar o Hezbollah no quadro dos acordos recentemente firmados entre Washington, Beirute e Jerusalém. Para Lisboa, membro fundador da Aliança, o debate sobre autonomia estratégica e o aumento da despesa militar ecoa diretamente nas discussões orçamentais nacionais; observadores em Brasília acompanham a cimeira com atenção, dado o estatuto do Brasil como aliado preferencial extra-OTAN e os potenciais reflexos na estabilidade do Atlântico Sul.
O desfecho da cimeira permanece incerto. O anúncio do banco de defesa depende ainda de negociações finais sobre as contribuições de capital dos membros fundadores, e a adesão de economias com notação de crédito elevada será determinante para a credibilidade da instituição. A missão no Líbano, por seu lado, carece de um mandato das Nações Unidas e do consentimento das autoridades libanesas. A cimeira de Ancara funcionará, assim, como um teste à capacidade da Aliança de gerir divergências profundas enquanto tenta projetar unidade perante os desafios de segurança globais.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A NATO está à beira de uma crise sem precedentes, com fraturas profundas sobre gastos militares e a guerra no Irão. O Secretário-Geral tenta remendar as feridas com iniciativas de última hora, enquanto a cimeira de Ancara surge como a última oportunidade para salvar a Aliança. As entrevistas com líderes europeus revelam a gravidade do momento.
O Canadá está a liderar a criação de um novo banco global de defesa para reduzir a dependência dos Estados Unidos, tirando partido das fraturas na NATO. A instituição proposta poderá mobilizar até 100 mil milhões de libras em empréstimos de baixo custo, prevendo-se o anúncio de cerca de dez países fundadores na cimeira de Ancara. A iniciativa reflete um esforço mais amplo das potências médias para construir uma arquitetura de segurança mais multipolar.
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