
A caixa na entrada da sala: o gesto que reordena a infância conectada
Pela primeira vez, o Brasil vê recuar a posse de celular entre crianças de 10 a 13 anos, enquanto a restrição nas escolas revela uma transformação mais ampla na relação com as telas.
Na entrada da sala de aula, uma caixa. Antes da explicação começar, cada estudante deposita ali o seu telefone. A cena, registada numa escola brasileira, é ao mesmo tempo banal e carregada de significado. A professora de português Geneci Ribeiro Padilha observa o ritual com realismo: “Muitos alunos ainda resistem, querem usar o aparelho, mas considero esse um primeiro passo importante”. A frase, recolhida por uma reportagem um ano após a entrada em vigor da lei federal que restringe o uso de celulares nas escolas, condensa um movimento que já não é apenas normativo — é também cultural.
Os números mais recentes do IBGE dão corpo a essa viragem. Em 2025, o Brasil ultrapassou pela primeira vez a marca de 90% da população com dez anos ou mais conectada à internet, com 168,7 milhões de usuários. O celular está presente em 97,4% dos lares, um recorde. No entanto, na faixa etária dos 10 aos 13 anos, a posse do aparelho recuou de 56,7% para 55,2% — a única queda registada entre todas as idades. O motivo mais citado para não ter o dispositivo foi a preocupação com privacidade ou segurança, apontado por 32% das crianças. Para observadores em Brasília, a combinação entre a lei escolar, o debate público sobre saúde mental e a aprovação do ECA digital criou um ambiente inédito de contenção.
A perceção dos educadores reforça a profundidade da mudança. Um levantamento do Ministério da Educação com diretores de mais de oito mil escolas públicas e particulares mostrou que 95% dos docentes notaram melhoria na concentração dos alunos, 97% viram mais participação nas atividades e 88% associaram a restrição à redução de conflitos e cyberbullying. A socialização no recreio também foi apontada como mais intensa por 95% dos gestores. Ainda assim, 39% dos diretores relatam dificuldades para fazer cumprir a regra, e 31% enfrentam desafios de fiscalização. A imagem da caixa na entrada da sala, portanto, não é um ponto final, mas um objeto de negociação diária.
Fora do Brasil, outras geografias ensaiam respostas próprias ao mesmo dilema. No Egito, o governo lançou o “chip da criança”, um serviço que bloqueia conteúdos inadequados e redes sociais, oferecendo às famílias uma ferramenta de controlo parental que, segundo sociólogas ouvidas no Cairo, é um apoio, mas não substitui o acompanhamento dos pais. Na Argentina, o Ministério Público Tutelar e a Sociedade Argentina de Pediatria iniciaram uma campanha para desaconselhar o uso de inteligência artificial como suporte emocional por adolescentes — “A IA dá respostas, mas não acompanha”, diz a peça central. Já na Indonésia, o governo anunciou a expansão da digitalização escolar para 2026, com foco em infraestrutura elétrica e de internet nas regiões mais remotas, enquanto forma 150 mil professores em novas competências, incluindo inteligência artificial. Em todos os casos, a tecnologia não é recusada, mas reenquadrada.
O Brasil que emerge dos dados do IBGE é, assim, um país de contrastes em movimento. De um lado, 95% dos domicílios têm internet, o streaming pago chega a 44,4% dos lares e as televisões de tela fina ocupam 95% das casas com TV. De outro, 17,7 milhões de pessoas ainda não usam a rede — quase metade porque não sabem como. A caixa na entrada da sala de aula, com os celulares em silêncio, é também um espelho dessa dualidade: um país que aprende a dosear a conexão, enquanto uma parcela significativa da população ainda procura a porta de entrada.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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The Chinese press frames the global rethinking of digital childhood as a vindication of its own strict internet regulations, presenting the 'box at the classroom door' as a prudent measure that protects children from harmful content and addiction. It highlights China's early adoption of such policies as a model for the world, without acknowledging the societal costs of extensive control.
European press, especially Nordic outlets, frame the digital childhood debate as a pragmatic balancing act between safety and children's rights. They emphasize evidence-based policies and caution against overregulation, highlighting the need for digital literacy alongside restrictions. The 'phone box' approach is seen as a tool, not a panacea.
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