
Trump transforma 250 anos dos EUA em palanque contra 'ameaça comunista'
Discurso no Monte Rushmore na véspera do aniversário da independência associa oposição interna e imigrantes a um ataque à identidade nacional, enquanto onda de calor extremo e disputas partidárias marcam as celebrações.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abriu as comemorações dos 250 anos da independência do país com um discurso no monumento do Monte Rushmore, na noite de sexta-feira, no qual afirmou que a identidade americana está sob um "ataque renovado" e denunciou uma "ressurgência da ameaça comunista" em território nacional. A intervenção, transmitida ao vivo e acompanhada por uma multidão de apoiantes, ocorreu sob as efígies em granito de quatro antigos presidentes e serviu de antecâmara para o evento central deste sábado no National Mall, em Washington, onde Trump prometeu um "discurso muito longo" e o que classificou como o maior espetáculo de fogo de artifício do mundo.
Segundo a Casa Branca, a retórica anticomunista visa responder ao avanço de candidatos da ala progressista do Partido Democrata nas eleições primárias, um movimento que, na leitura de analistas em Washington, o presidente republicano procura colar à imagem de um perigo existencial para o país. Trump declarou que "se pode ser leal a Karl Marx ou leal à América", associou o comunismo a imigrantes ilegais e criminosos, e defendeu a aprovação da lei SAVE America como condição para evitar derrotas nas eleições legislativas de novembro. Em Nova Iorque, o presidente da câmara, o democrata socialista Zohran Mamdani, respondeu com um discurso centrado nos direitos dos imigrantes, enquanto o papa Leão XIV, primeiro pontífice norte-americano, apelou a que o país esteja "à altura" dos ideais da Declaração de Independência.
A instrumentalização do aniversário histórico gerou tensões institucionais. A comissão bipartidária America250, criada pelo Congresso em 2016, foi esvaziada de recursos e protagonismo depois de Trump ter instituído, por decreto, a organização Freedom 250, ligada à sua campanha e à Fundação dos Parques Nacionais. Na perspetiva de observadores europeus, a duplicação de estruturas e a transferência de financiamento para uma entidade sob controlo presidencial representam uma quebra inédita do protocolo cívico que marcou efemérides anteriores, como o bicentenário de 1976. Em Brasília, diplomatas notam que a personalização da data nacional ecoa estratégias de mobilização de bases já testadas noutros contextos, mas sublinham o risco de agravamento da polarização interna.
As celebrações decorrem sob uma onda de calor extremo que levou ao cancelamento do tradicional desfile do 4 de julho em Washington e ao encerramento temporário da Grande Feira Estatal Americana, organizada pela Freedom 250. Apesar das temperaturas superiores a 38 graus Celsius, Trump manteve a agenda e desafiou as recomendações meteorológicas. O evento no National Mall, que inclui sobrevoos militares e um espetáculo pirotécnico de 40 minutos, é apresentado pela administração como uma homenagem ao país, mas, segundo analistas da imprensa norte-americana, assume contornos de comício eleitoral a poucos meses das eleições de meio de mandato, num momento em que sondagens indicam que 61% dos americanos consideram que o país não está a cumprir os ideais fundacionais.
| Imprensa latino-americana | −0.60 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | +0.60 | aligned |
Trump transformou o feriado nacional em um comício, revelando sua megalomania e a divisão do país. O Monte Rushmore não é um símbolo de unidade, mas de ambição pessoal.
A ironia e o contraste entre as imagens dos presidentes históricos e o desejo de Trump de adicionar seu próprio rosto são usados para desmontar a retórica patriótica.
Os aspectos positivos do discurso de Trump, como o elogio da história americana, e o impacto da onda de calor nos eventos são omitidos.
A América celebra 250 anos de liberdade sob a liderança de Trump, que defende a identidade nacional da ameaça comunista. O Monte Rushmore é o palco perfeito para reafirmar o excepcionalismo americano.
A ameaça comunista é equiparada a eventos históricos como guerras mundiais e 11 de setembro, criando uma hierarquia de ameaças que justifica a retórica alarmista.
As críticas à politização do feriado, a onda de calor que interrompe os eventos, e o fato de que muitos americanos veem a celebração como divisiva são omitidas.
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