
Dez anos depois, 'Moana' regressa em carne e osso com o peso de um legado
A estreia da versão live-action, com Dwayne Johnson a carregar 18 quilos de próteses, reacende o debate sobre a fidelidade absoluta aos originais animados da Disney.
No palco do Hollywood Bowl, em Los Angeles, o som dos tambores polinésios ainda ecoava quando Dwayne Johnson subiu para falar. Acabara de assistir a uma dança tradicional que abrira a antestreia mundial do novo 'Moana', e o ator, visivelmente emocionado, dedicou o momento ao avô, o High Chief Peter Maivia, cuja figura imponente e cabelo solto inspiraram o semideus Maui que agora interpreta em imagem real. “Isto é para ele”, disse Johnson, perante uma plateia que, naquela noite, testemunhava a transposição de um mito familiar para o ecrã.
A cena resume o esforço físico e simbólico que sustenta esta nova versão. Para encarnar Maui, Johnson submeteu-se diariamente a duas horas e meia de caracterização: um bodysuit protésico de 18 quilos, uma peruca longa e lisa e uma maquilhagem que lhe cobria o corpo tatuado. O traje, desenhado pelo maquilhador Joel Harlow a partir de um molde do ator, foi a solução encontrada para traduzir a musculatura sobre-humana do personagem sem recorrer exclusivamente a efeitos digitais. A atriz australiana Catherine Laga’aia, estreante em grandes produções, assume o papel de Moana, a jovem que desafia o oceano para salvar a sua ilha, repetindo quase fotograma a fotograma a jornada que Auli’i Cravalho imortalizou em 2016.
A decisão de refazer 'Moana' apenas uma década depois da animação original – o intervalo mais curto de sempre para um live-action da Disney – é lida por analistas norte-americanos como um sintoma da estratégia do estúdio de minimizar riscos criativos. O filme de 2016 arrecadou mais de 643 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais, a sequela animada de 2024 ultrapassou os mil milhões e o título continua a ser o mais visto de sempre no Disney+, com 1,5 mil milhões de horas de visionamento. Na América Latina, onde a personagem conquistou um público fiel, críticos apontam que a nova versão “pouco acrescenta” e que a fidelidade extrema à obra original a torna, nas palavras de um jornal argentino, “desnecessária”. Já no Sudeste Asiático, a atenção mediática recaiu sobretudo sobre a transformação física de Johnson e o seu tributo à herança samoana.
A receção dividida não impediu que o carisma do ator fosse quase unanimemente destacado. No Brasil, a crítica notou que Johnson “rouba a cena” e confere a Maui um humor mais afiado, enquanto Laga’aia, apesar de uma voz elogiada, entrega uma Moana “menos magnética” do que a original. Visualmente, a tentativa de recriar as paisagens exuberantes da Polinésia com ecrãs verdes e efeitos digitais gerou descontentamento: o oceano, personagem central da história, perdeu parte do encanto em interações que, para observadores europeus, soaram “artificiais”. Ainda assim, a banda sonora, com uma nova canção de Lin-Manuel Miranda, mantém o brilho que ajudou a consagrar a franquia.
No final, a imagem que perdura é a de um Maui de carne e osso, carregando nos ombros não apenas as 40 libras de próteses, mas o peso de uma herança cultural e de uma fórmula de sucesso que a Disney insiste em replicar. Enquanto o oceano chama uma nova geração de espectadores, fica a pergunta silenciosa que o próprio filme não responde: até que ponto a fidelidade absoluta pode, ela própria, tornar-se uma forma de esquecimento.
| Imprensa latino-americana | −0.30 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa do Golfo árabe | +0.70 | aligned |
| Imprensa europeia continental | −0.70 | critical |
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Apela à autenticidade cultural para legitimar a crítica, opondo o orgulho identitário à lógica de mercado.
Omite o ângulo positivo da celebração familiar da estreia e a narrativa pessoal da estrela.
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Personaliza a narrativa em torno de Dwayne Johnson, transformando o filme em um evento familiar para neutralizar as críticas.
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Os críticos de cinema europeus denunciam a falta de originalidade e a mercantilização da nostalgia.
Usa ironia e comparação com o original para menosprezar o remake, alavancando o prestígio cultural da animação.
Omite o ângulo da representação e a conexão ancestral pessoal de Dwayne Johnson.
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