
Cultura da otimização gera mais ansiedade do que bem-estar, indicam estudos
Pesquisas recentes mostram que a busca incessante por métricas de saúde e produtividade pode ser contraproducente, enquanto práticas simples e consistentes ganham respaldo científico.
Um levantamento com mais de 500 pais nos Emirados Árabes Unidos revelou que 53% acreditam que monitorar constantemente sono, exercício e produtividade os torna mais ansiosos, e apenas 8% se sentem mais felizes com essa vigilância. O dado, divulgado em pesquisa da Nord Anglia Education, expõe uma fissura na promessa da cultura da otimização: a ideia de que medir mais leva a viver melhor. A insatisfação com a quantificação da vida cotidiana ecoa um princípio formulado pelo economista Charles Goodhart — quando uma métrica se torna um objetivo, ela deixa de ser uma boa medida — e encontra respaldo em evidências de que a busca por desempenho máximo frequentemente ignora os ritmos biológicos e emocionais.
Especialistas em sono, por exemplo, têm desmontado mitos que alimentam a ansiedade noturna. A médica Esmeralda R. Martín, em declarações ao El Periodico de España, explicou que despertares breves durante a noite são parte da arquitetura normal do sono, e só se tornam problema quando a pessoa não consegue voltar a adormecer. Na mesma linha, a Organização Mundial da Saúde e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA recomendam priorizar a regularidade do descanso e o despertar espontâneo, sem alarmes, em vez de recorrer a suplementos. A Sociedade Espanhola de Sono alerta que o uso habitual de alarmes limita a fase REM e eleva o estresse matinal. No campo da atividade física, a Liga Europeia contra o Reumatismo (EULAR) reforçou em diretrizes de 2025 que o exercício é parte central do tratamento de artrite e artrose, contrariando a crença de que repouso protege as articulações. Fisioterapeutas e médicos do esporte, como o especialista Agus Oliver, em Barcelona, defendem que duas a três sessões semanais bem planeadas já produzem ganhos significativos de força e mobilidade, sem necessidade de rotinas extenuantes.
A pressão por métricas também atinge a alimentação e a saúde mental. Investigações da Universidade de Minnesota e de Harvard mostram que dietas muito restritivas podem desacelerar o metabolismo basal e aumentar a perda de massa muscular, dificultando a perda de peso sustentada. Paralelamente, a cultura da “correria” (hustle culture) é desafiada por estudos do Instituto de Tecnologia de Illinois, que já na década de 1950 indicavam que cientistas que trabalhavam 35 horas semanais eram menos produtivos do que os que dedicavam 20 horas. O professor de ciência da computação Cal Newport, da Universidade de Georgetown, distingue o “trabalho profundo” do “trabalho superficial” e alerta que a multitarefa constante fragmenta a atenção e reduz a qualidade das entregas. No campo emocional, a psicóloga Mirriam Prieß, na Alemanha, observa que chorar no ambiente de trabalho não é sinal de falta de profissionalismo, mas uma resposta a sobrecarga que, se ignorada, pode evoluir para esgotamento.
Enquanto o mercado global de dispositivos vestíveis (smartwatches, anéis de monitoramento) caminha para atingir 280 mil milhões de dólares até 2030, segundo projeções do setor, a ciência comportamental sugere que o bem-estar depende menos de painéis de controle e mais de hábitos estáveis: dormir em horários regulares, movimentar-se com consistência moderada, alimentar-se sem extremos e reservar tempo para o ócio não produtivo. O próximo marco a observar será a capacidade das políticas públicas de saúde — e da comunicação social — de traduzir essas evidências em mensagens que priorizem a qualidade sobre a quantidade, num momento em que a indústria do autocuidado continua a vender a ideia de que tudo pode ser otimizado.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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