
Danny Glover e a memória que resiste: o ator revela Alzheimer e o que ainda não esquece
Aos 79 anos, o eterno Roger Murtaugh de 'Arma Letal' partilha o diagnóstico de Alzheimer, os primeiros esquecimentos e a determinação de continuar a contar a sua própria história.
Quando Nelson Mandela saiu da prisão e caminhavam juntos, Winnie Mandela aproximou-se e o líder sul-africano disse: “Winnie, aqui está o teu outro marido”. Danny Glover recorda a cena com uma nitidez que a doença ainda não apagou. O ator, que interpretou Mandela num telefilme de 1987 e o apoiou durante o apartheid, guarda esse momento como um dos que “validam o facto de que consegues lembrar-te das coisas”. A anedota, partilhada numa entrevista à revista People, contrasta com os primeiros sinais de esquecimento que a filha Mandisa começou a notar em 2022: as histórias familiares que o pai repetia com precisão cirúrgica subitamente perdiam detalhes.
O diagnóstico de Alzheimer chegou em 2023, pouco depois de Glover ter recebido um Óscar honorário pelo seu ativismo humanitário. A revelação pública, feita esta semana no programa Today, da NBC, e na People, foi um ato de controlo narrativo. “É importante que ele tenha domínio sobre a sua própria história”, explicou Mandisa. O ator, que completa 80 anos em julho, reconhece que a fala e os movimentos já abrandaram, mas insiste: “Não sinto que seja o fim da minha vida. Ainda há trabalho a fazer”. A família, incluindo o irmão Marty, que vive com ele, e uma equipa de cuidadores, forma a rede que o ampara enquanto a doença avança.
Para o público lusófono, Glover é sobretudo o sargento Roger Murtaugh, o polícia cansado que, ao lado de Mel Gibson, transformou a saga “Arma Letal” num ícone das tardes de domingo da televisão brasileira e portuguesa. Mas a sua carreira de mais de 170 títulos cruza o cinema de autor e o ativismo social. Em “O Amor É um Lugar Estranho” (1984), dedicou a interpretação à mãe, que morrera num acidente de carro no dia em que soube que conseguira o papel. Em “A Cor Púrpura” (1985), de Steven Spielberg, encarnou Mister, o marido violento, e refletiu mais tarde: “Também ele sofria. Parte da sua cura passou por aí”. Observadores no Brasil notam que a sua presença em clássicos como “O Predador 2” e “Os Excêntricos Tenenbaums” o fixou como um rosto familiar de um cinema que misturava ação e sensibilidade.
A decisão de tornar público o Alzheimer insere-se num esforço mais amplo de combater o estigma. Nos Estados Unidos, onde mais de sete milhões de pessoas com mais de 65 anos vivem com a doença, os homens negros são afetados a uma taxa que duplica a média nacional, segundo a Alzheimer’s Association. Glover, que foi embaixador da Boa Vontade do PNUD e da UNICEF, sempre usou a voz para causas coletivas. Agora, ao falar da própria fragilidade, oferece um testemunho que, na perspetiva de analistas em Lisboa, ecoa a luta de figuras como Bruce Willis, cuja família também expôs a demência para normalizar o debate.
Pela manhã, quando a mente está mais clara, Glover lê, vê o programa “Democracy Now!” e procura pensar em algo. “Ainda tenho a minha filha, tenho amigos. Quero apenas dizer: a tua vida continua”, afirmou. A frase não é um slogan de otimismo fácil, mas a constatação de um homem que, mesmo vendo as palavras escaparem, insiste em deixar uma última imagem: a de um ator que, ao revelar a doença, escolheu ser lembrado não pelo que esquece, mas pelo que ainda escolhe recordar.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Danny Glover revelou que vive com Alzheimer há vários anos. Numa entrevista televisiva, falou calmamente sobre o diagnóstico, notando que a doença trará mudanças, mas que por enquanto consegue gerir com o apoio da família. A reportagem centra-se na história pessoal sem sensacionalismo.
Danny Glover admite que não aceitou totalmente o diagnóstico de Alzheimer, mas insiste que a sua vida não acabou. Descreve momentos de clareza e memória que confirmam a sua capacidade de recordar, e sublinha que partilha esta condição com milhões de outras pessoas. A história apresenta a sua resiliência e ativismo contínuo como um contraponto à doença.
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