
No silêncio do Vaticano, uma carta e uma nomeação redefinem os contornos da Igreja
Enquanto o Papa Leão XIV implorava por escrito aos tradicionalistas que evitassem um cisma, elevava uma freira italiana a um dos postos mais altos da Cúria Romana.
Na manhã da solenidade de São Pedro e São Paulo, o Papa Leão XIV sentou-se para escrever em francês uma carta que soava mais a súplica do que a decreto. “Je vous en supplie”, redigiu, com a consciência de que, dali a dois dias, os tradicionalistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X planeavam consagrar quatro bispos sem o seu consentimento, num seminário em Écône, na Suíça. O gesto, advertia o pontífice, constituiria um “pecado de extrema gravidade” e privaria os fiéis da receção lícita – e, em certos casos, até válida – dos sacramentos. A missiva, datada de 29 de junho, era um último apelo para evitar um cisma que evocava o trauma de 1988, quando o fundador do grupo, Marcel Lefebvre, foi excomungado por um ato semelhante.
No dia seguinte, o mesmo Papa assinava um decreto de nomeação que prolongava outra herança do seu antecessor: a religiosa salesiana Alessandra Smerilli, economista de 51 anos, tornava-se prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, responsável pelas pastas das migrações, do ambiente e do desenvolvimento. Até então secretária do organismo, Smerilli substitui o cardeal canadiano Michael Czerny, que se retira aos 80 anos, e converte-se na terceira mulher a chefiar um “ministério” vaticano – depois de Simona Brambilla e da leiga María Montserrat Alvarado. A nomeação, que entra em vigor a 1 de setembro de 2026, foi acompanhada pela designação do cardeal Fabio Baggio como pró-prefeito, um reconhecimento de que certas funções exigem um sacerdote ordenado.
A dupla decisão expõe as tensões que atravessam a Igreja Católica neste início de pontificado. Se, por um lado, Leão XIV sinaliza continuidade com a política de Francisco de promover mulheres a postos de liderança – respondendo a décadas de queixas de que as religiosas sustentam escolas, hospitais e a transmissão da fé, mas permanecem afastadas das decisões –, por outro, vê-se obrigado a conter uma ala que rejeita em bloco as reformas do Concílio Vaticano II. A Fraternidade São Pio X, que conta com mais de setecentos sacerdotes e duzentos seminaristas de cinquenta nacionalidades, representa uma igreja paralela, ultraconservadora, que celebra a missa em latim e não reconhece plenamente a autoridade papal.
Para o mundo lusófono, os dois movimentos têm ressonâncias distintas. No Brasil, onde a Igreja perde fiéis para as denominações evangélicas, a ascensão de uma mulher a um dicastério de relevo é lida por analistas como um aceno à modernização que pode reforçar a legitimidade institucional, sobretudo entre as gerações mais jovens. Em Portugal, observadores notam que a ameaça cismática ecoa em setores católicos conservadores, ainda que a Fraternidade tenha uma presença reduzida no país. Já em Angola e Moçambique, onde a Igreja desempenha um papel central na educação e na saúde, a nomeação de Smerilli – uma economista atenta às questões do desenvolvimento – é vista com expectativa, num momento em que as alterações climáticas e os fluxos migratórios pressionam as comunidades locais.
Na carta enviada a Davide Pagliarani, superior da Fraternidade, o Papa deixou uma porta aberta: “A Igreja está disposta a empreender um caminho de diálogo e entendimento”. Mas o apelo mais contundente não foi institucional; foi pastoral. “Peço-vos de todo o coração: deem meia-volta!”, escreveu, como quem sabe que o cisma não se resolve com decretos, mas com o fio frágil da confiança. A 1 de setembro, quando a irmã Smerilli assumir o seu novo gabinete, a carta de Écône continuará a pairar sobre o Vaticano como um eco de uma fratura que o tempo ainda não soldou.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Papa Leão XIV nomeou a Irmã Alessandra Smerilli como prefeita do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, tornando-a a terceira mulher a ocupar tal cargo no Vaticano. A medida dá continuidade ao caminho traçado por Francisco, que já havia promovido mulheres a altos postos na Cúria. A economista salesiana, antes secretária do dicastério, chefiará o escritório para migrantes, meio ambiente e desenvolvimento.
Num passo histórico, o Papa Leão XIV nomeou pela primeira vez uma mulher para um alto cargo na Santa Sé, promovendo a Irmã Alessandra Smerilli para chefiar o escritório de migrantes, meio ambiente e desenvolvimento. A decisão estende o legado de Francisco, que fez da promoção das mulheres um pilar do seu pontificado. A economista italiana torna-se assim um símbolo da nova direção do Vaticano.
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