
A corrida pela infraestrutura da IA encarece chips e eletricidade
A procura voraz dos centros de dados por memória e energia está a provocar uma escassez que já se reflete nos preços de computadores, telemóveis e até nas tarifas elétricas.
O preço dos chips de memória DRAM duplicou em 2025 e voltou a subir entre 40% e mais de 90% no primeiro trimestre de 2026, segundo a consultora taiwanesa TrendForce. A Microsoft aumentou o preço da Xbox pela terceira vez em treze meses, a Apple subiu os preços dos Mac e iPad em centenas de dólares e os contratos de memória NAND registaram o maior salto numa década. A causa não é um desastre natural, mas a construção acelerada de centros de dados para inteligência artificial, que está a sugar a capacidade mundial de semicondutores.
A dinâmica é descrita por analistas como uma “chipflation”: os grandes operadores de infraestrutura de IA — Microsoft, Amazon, Google e Meta — estão a absorver mais de 80% da capacidade avançada de fabrico de memória, redirecionando as linhas de produção para chips de alto débito (HBM) que alimentam os processadores da Nvidia. A Micron, um dos três fabricantes que dominam o mercado global, admite que a procura excede significativamente a oferta e que as condições de escassez se devem manter para lá de 2027. A concentração geográfica da produção — a taiwanesa TSMC controla cerca de 70% do mercado de fundição e mais de 90% dos chips mais avançados — torna a cadeia de abastecimento vulnerável a estrangulamentos que já se propagam a componentes menos visíveis, como condensadores e materiais para placas de circuito impresso.
A pressão estende-se à rede elétrica. Nos Estados Unidos, as fusões e aquisições no setor de energia e serviços públicos atingiram um recorde de 203,6 mil milhões de dólares nos primeiros cinco meses de 2026, um salto de mais de 40% face a todo o ano anterior, impulsionadas pela necessidade de financiar centrais e linhas de transmissão para os centros de dados. Um relatório do Capgemini Research Institute, baseado em mais de 600 executivos do setor elétrico, revela que 77% têm dificuldade em prever a procura futura e 68% antecipam défices de energia porque a expansão da oferta não acompanha o ritmo dos centros de dados. Cerca de 19% dos pedidos de ligação à rede nunca se materializam, distorcendo os planos de investimento. Na Europa, observadores em Lisboa e Madrid notam que a fatura elétrica já subiu 9% nos EUA e que a pressão sobre os preços da energia é um risco importado para economias dependentes de componentes eletrónicos.
Enquanto o hardware se torna mais caro, o mercado de trabalho também se reconfigura. Relatórios do Fórum Económico Mundial e da McKinsey indicam que a IA não eliminará profissões inteiras, mas transformará tarefas rotineiras em setores como o atendimento ao cliente, a programação e o design gráfico. A competência mais valorizada passa a ser a capacidade de reorganizar processos de negócio para tirar partido da tecnologia — um desafio que, segundo analistas na Suécia, exige que empresas e governos compreendam profundamente as suas próprias cadeias de decisão antes de delegarem funções em agentes autónomos.
O próximo marco a observar é a entrada em operação das novas fábricas de semicondutores anunciadas na Coreia do Sul e nos EUA, cuja capacidade significativa não chegará antes de meados de 2027. Até lá, os preços de computadores, telemóveis e automóveis deverão continuar sob pressão, e os reguladores norte-americanos já sinalizaram maior escrutínio sobre as tarifas elétricas e as condições de ligação à rede para grandes cargas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A escassez de chips de memória, impulsionada pelo boom dos data centers de IA, está elevando os preços dos eletrônicos de consumo sem uma solução rápida à vista. Isso cria um triplo problema: os consumidores pagam mais, as empresas enfrentam custos mais altos e pressão nas margens, e os data centers enfrentam um desafio de relações públicas ao serem associados aos aumentos de preços. Os analistas esperam que a pressão continue até 2027 e além.
A verdadeira batalha na IA não é sobre algoritmos, mas sobre infraestrutura física: fábricas de semicondutores, data centers e cadeias de suprimentos. Com o aumento da demanda por IA, os gargalos estão se espalhando das GPUs e memória para materiais upstream, dando poder a fornecedores de componentes antes negligenciados. Essa mudança está remodelando a competição tecnológica global, onde o controle sobre os insumos de fabricação pode determinar a vantagem estratégica.
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