
Visita do chanceler sírio ao Líbano afasta cenário de intervenção e lança comité bilateral
Asad al-Shaibani garantiu que Damasco não intervirá militarmente e assinou a criação de uma comissão suprema, enquanto Beirute defendeu o acordo-quadro com Israel.
A visita oficial do ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Asad al-Shaibani, a Beirute, na quinta-feira, resultou na assinatura de um acordo para a criação de uma comissão suprema conjunta e num compromisso público de não ingerência. Shaibani reuniu-se com o Presidente Joseph Aoun, o primeiro-ministro Nawaf Salam e o presidente do Parlamento, Nabih Berri, além de líderes religiosos e partidários, numa deslocação que, segundo fontes diplomáticas em Beirute, procurou dissipar os receios de uma intervenção militar síria no Líbano, alimentados por declarações do Presidente norte-americano Donald Trump.
Em declarações oficiais, o chefe da diplomacia síria afirmou que Damasco “não tem qualquer intenção de intervir militarmente” e que as relações bilaterais devem processar-se exclusivamente através das instituições estatais. Sobre o Hezbollah, Shaibani mostrou abertura a um encontro “se o interesse nacional o exigir”, mas sublinhou que o assunto não foi abordado nas reuniões. Já o Presidente Aoun aproveitou a ocasião para defender o acordo-quadro negociado com Israel, classificando a via diplomática como “a opção mais segura e menos onerosa” após as perdas humanas e materiais sofridas. Na perspetiva do Palácio de Baabda, preservar o apoio dos EUA, da União Europeia e dos países do Golfo é vital nesta fase, e a negociação não constitui traição, mas uma “guerra diplomática sem derramamento de sangue”.
A visita foi lida em Beirute como a primeira incursão política do novo poder de Damasco no tabuleiro libanês, num esforço para virar a página do legado de ocupação e tutela do regime de Bashar al-Assad. Analistas libaneses notam que a advertência de Shaibani contra um acordo apressado com Israel — que, segundo ele, poderia enfraquecer a posição negocial síria — revela a interdependência dos dois dossiês. Ao mesmo tempo, a receção alargada a figuras como o patriarca maronita, o mufti da República e os líderes dos principais partidos cristãos e drusos sinaliza uma tentativa de Damasco de se apresentar como parceiro de todos os libaneses, sem alinhamentos sectários.
O contexto regional pesa sobre esta reaproximação. As novas autoridades sírias, oriundas de fações que combateram o Hezbollah durante a guerra civil, herdaram um Estado exangue e procuram estabilidade para a reconstrução, ao mesmo tempo que Washington as incentiva a desempenhar um papel no desarmamento do grupo xiita — sugestão que Damasco tem rejeitado. A memória da longa presença militar síria no Líbano, encerrada em 2005 após o assassinato de Rafik Hariri, torna qualquer insinuação de regresso de tropas extremamente sensível. Com a assinatura do comité conjunto, os dois governos comprometem-se a coordenar áreas que vão da segurança à energia, mas o teste decisivo será a implementação do acordo-quadro com Israel e a gestão da questão do Hezbollah, num momento em que o cessar-fogo no sul do Líbano permanece frágil.
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