
Trump qualifica acordo com Irão como 'rendição incondicional', mas termos geram controvérsia
Presidente dos EUA defende memorando que põe fim à guerra, promete 300 mil milhões de dólares em reconstrução e alívio de sanções, enquanto Congresso e Israel manifestam ceticismo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, qualificou o memorando de entendimento assinado com o Irão como uma «rendição incondicional», argumentando que as forças americanas derrotaram militarmente Teerão e que o bloqueio naval imposto demonstrou o poderio de Washington. Em entrevista ao site Axios, Trump defendeu o acordo que pôs fim à guerra no Médio Oriente, afirmando que a alternativa seria continuar a bombardear o Irão durante semanas, mantendo o estreito de Ormuz fechado e provocando uma recessão económica global. «Provavelmente é uma rendição incondicional», disse, ao mesmo tempo que atacava os críticos como «estúpidos» ou «invejosos», sublinhando que os mercados accionistas atingiram máximos e os preços do petróleo desabaram.
No entanto, o texto do memorando, divulgado pela Reuters e composto por 14 cláusulas, revela um quadro bem mais matizado. O documento estabelece um cessar-fogo imediato e permanente em todas as frentes, incluindo o Líbano, e prevê o levantamento do bloqueio naval no prazo de 30 dias, a retirada de forças americanas das imediações do Irão e a elaboração de um plano de reconstrução económica iraniana de pelo menos 300 mil milhões de dólares. Washington compromete-se ainda a cancelar todas as sanções, inclusive as unilaterais e as do Conselho de Segurança da ONU, enquanto Teerão reafirma que não procurará armas nucleares, mas o destino do urânio enriquecido e a questão do enriquecimento ficam remetidos para uma negociação final de 60 dias. A passagem segura de navios comerciais por Ormuz será garantida por um diálogo com Omã e outros Estados do Golfo.
A reação em Washington foi de profunda divisão. O comité pró-Israel AIPAC exigiu que o Congresso tenha acesso integral aos detalhes e que qualquer acordo final elimine permanentemente o programa nuclear iraniano, desmantele as centrífugas e retire todo o urânio enriquecido. A fundação Carnegie alertou para a ambiguidade dos termos, semelhante à de pactos anteriores que fracassaram, e para o risco de Teerão não cumprir compromissos não escritos. No Senado, o líder democrata Chuck Schumer acusou Trump de incompetência e avisou que os democratas não apoiarão a transferência de 300 mil milhões de dólares para o Irão. Senadores republicanos como Bill Cassidy e John Cornyn manifestaram publicamente o seu espanto e preocupação, com Cassidy a declarar que «o Irão saiu mais forte e nós mais fracos».
Do lado israelita, a insatisfação é palpável. Israel negoceia com Washington a manutenção das suas forças no sul do Líbano, enquanto prosseguem ataques em território libanês que levaram ao adiamento da viagem de negociadores iranianos à Suíça. O vice-presidente J.D. Vance repreendeu os críticos israelitas, recordando os milhares de milhões de dólares em ajuda militar que os EUA fornecem a Israel, mas a tensão sublinha a fragilidade do consenso transatlântico. Em Teerão, a imprensa económica apresentou o acordo como uma vitória, destacando as confissões de Trump sobre o risco de recessão mundial e a necessidade de reabrir Ormuz.
Para o mundo lusófono, o desfecho imediato é positivo: a reabertura do estreito de Ormuz alivia a pressão sobre os preços do petróleo, beneficiando produtores como Brasil, Angola e Moçambique, e acalma os mercados globais. Contudo, analistas em Brasília e Lisboa observam que o verdadeiro teste será a negociação final, onde terão de ser resolvidas as questões nucleares e balísticas que o memorando adiou. A União Europeia, com Portugal entre os seus membros, deverá apoiar uma solução diplomática, mas exigirá garantias verificáveis de que o Irão não mantém capacidade de enriquecimento. O equilíbrio entre o alívio económico e a segurança regional permanece incerto, e o papel do Congresso americano e dos aliados do Golfo será determinante para que este entendimento não se some à lista de acordos fracassados do passado.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A mídia iraniana destaca que Trump admitiu ter negociado para evitar uma recessão global causada pela interrupção do fornecimento de petróleo, enquadrando sua alegação de rendição incondicional como um exagero presunçoso. Eles retratam a guerra como injustificada e o acordo como motivado por necessidade econômica, não por derrota militar.
A mídia alinhada aos EUA apresenta a declaração de Trump de que o memorando equivale a uma rendição incondicional do Irã, exibindo a superioridade militar americana por meio de um bloqueio naval que nenhum navio conseguiu romper. Eles celebram a ação decisiva do presidente e enquadram o resultado como uma vitória clara.
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