
Salas cheias, resultados escassos: o mundo repensa o que é aprender
Da Índia ao Brasil, passando pela Indonésia e pelo Gana, a acumulação de informação já não basta — e a própria definição de inteligência está a ser posta em causa.
Entra-se num centro de preparação para exames competitivos em Kota, Hyderabad ou Patna e o que salta à vista não é apenas a lotação das salas. Os horários são mais punitivos do que há cinco anos, os simulados começam mais cedo e os alunos são cada vez mais novos. Tudo no ecossistema sinaliza mais esforço, mais investimento, mais pressão. E, no entanto, para a maioria dos candidatos, os resultados não acompanham a intensidade da preparação. O instinto mais comum — estudar mais horas, cobrir mais capítulos, tentar mais testes — produz, com notável regularidade, rendimentos decrescentes. Educadores indianos observam que a abundância de material didático digital, longe de ser uma vantagem automática, empurrou muitos estudantes para a armadilha de confundir familiaridade com domínio. O que distingue os que progridem dos que estagnam, notam, é a disciplina de regressar repetidamente ao mesmo conteúdo, corrigir erros antes de avançar e tratar cada resposta errada como informação, não como fracasso.
Do outro lado do Índico, na Indonésia, a transformação do comércio digital conta uma história paralela sobre a insuficiência da mera acumulação. Durante anos, os marketplaces foram o ícone da economia digital do país. Agora, o chamado social commerce — impulsionado por plataformas como TikTok, Instagram e WhatsApp — desloca o centro de gravidade das transações para as relações. Analistas em Jacarta notam que o consumidor já não procura apenas o melhor preço, mas experiência, vínculo emocional e confiança. A decisão de compra nasce frequentemente de interações consistentes, recomendações de influenciadores e comunidades de interesse. Esta mudança obriga as universidades a repensar a formação: não basta dominar a tecnologia, é preciso compreender o comportamento humano. O talento digital exigido pelo mercado, defendem instituições como a Universitas Nusa Mandiri, tem de integrar negócios, criatividade e análise de dados — e ser testado em projetos reais, não apenas em salas de aula.
No Brasil, o envelhecimento acelerado da população impõe uma reinvenção semelhante da ideia de carreira. Projeções do IBGE indicam que, até 2030, o número de idosos ultrapassará o de crianças e adolescentes. A trajetória linear de estudar, trabalhar e aposentar-se aos 60 anos dissolve-se. Consultores em São Paulo sublinham que a longevidade profissional, combinada com a rápida obsolescência de competências — o Fórum Económico Mundial estima que 39% das habilidades atuais sofrerão alterações significativas até 2030 —, transforma a atualização permanente numa estratégia de sobrevivência. Multiplicam-se as carreiras não lineares, as reinvenções tardias e a procura por MBAs e especializações. A diversidade geracional começa a ser valorizada, mas o desafio, apontam especialistas, é consolidar uma cultura de aprendizagem contínua que não se esgote no diploma.
É neste ponto que um ensaio publicado no Gana e um alerta de neurocientistas norte-americanos e canadianos convergem de forma inesperada. O texto ganês propõe que a inteligência não é um atributo que se possui, mas um processo — o mecanismo pelo qual a experiência acumulada se mantém disponível para influenciar o futuro. O verdadeiro desafio, argumenta, não é aprender, mas preservar a experiência numa forma útil, evitando que a continuidade se quebre e o conhecimento se evapore. Já os investigadores da Université de Montréal e da Johns Hopkins University advertem para o risco de confundir a fluência empática dos chatbots de inteligência artificial com uma consciência genuína. Recorrem ao fenómeno da “visão cega” (blindsight), em que pacientes processam informação visual sem qualquer experiência consciente, para lembrar que responder de forma convincente não equivale a sentir ou compreender. A ilusão de consciência nas máquinas, dizem, torna-se mais perigosa à medida que estas se mostram mais sensíveis às nossas emoções.
Olhando para as salas cheias de Kota, para os vendedores indonésios que constroem comunidades em vez de catálogos, para os profissionais brasileiros que alongam carreiras e para os neurocientistas que pedem cautela, desenha-se um fio comum. A acumulação bruta — de horas de estudo, de conteúdos, de transações, de anos de serviço ou de respostas convincentes — revela-se estéril se não for acompanhada pela capacidade de revisitar, corrigir e aplicar a experiência com discernimento. A inteligência, sugere o ensaio ganês, pode ser apenas experiência acumulada em movimento. E o movimento, em todos estes cenários, exige uma pausa para olhar para trás antes de dar o passo seguinte.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A inteligência não é um atributo mensurável, mas um processo pelo qual a experiência acumulada se torna disponível para influenciar o futuro. Essa visão, enraizada em uma perspectiva filosófica africana, convida a repensar fundamentalmente o próprio conceito de inteligência.
Na Indonésia, a inteligência se expressa na capacidade de adaptação às mudanças do mercado digital, migrando dos marketplaces tradicionais para o comércio social. As universidades são instadas a formar não apenas candidatos a emprego, mas empreendedores prontos para aproveitar as oportunidades da economia digital.
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