
Bolívia declara estado de emergência após semanas de bloqueios; oposição mantém pressão
Presidente Rodrigo Paz mobiliza Forças Armadas para desobstruir estradas, enquanto setores leais a Evo Morales rejeitam acordo com a central sindical e mantêm protestos que já causaram dezenas de mortos.
O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, declarou na madrugada de sábado (20) o estado de emergência em todo o território nacional, após mais de seis semanas de protestos e bloqueios de estradas que paralisaram a economia e deixaram ao menos 16 mortos. A medida, anunciada horas depois de um acordo firmado com a Central Operária Boliviana (COB) para pôr fim às manifestações, permite o emprego das Forças Armadas para desobstruir as vias e restabelecer a ordem. O decreto, que suspende temporariamente direitos de circulação e reunião, terá validade de até 90 dias e já foi comunicado ao Congresso, que dispõe de 72 horas para ratificá-lo ou rejeitá-lo.
Segundo o governo, a decisão foi tomada após se esgotarem “todas as vias do diálogo” e diante do que classificou como “uma tentativa de golpe de Estado do narcoterrorismo”. Paz acusa o ex-presidente Evo Morales, refugiado na região cocalera do Chapare, de orquestrar os bloqueios com financiamento do narcotráfico – alegação que não foi acompanhada de provas. Já a COB, que liderou as paralisações desde o início de maio, anunciou o levantamento das medidas de pressão após obter do Executivo a promessa de não privatizar empresas públicas e a criação de mesas de trabalho para discutir reivindicações. No entanto, organizações camponesas e indígenas como a Federação Túpac Katari e os produtores de coca aliados a Morales rejeitaram o acordo e mantiveram o bloqueio de cerca de cinquenta pontos estratégicos, sobretudo nos departamentos de La Paz e Cochabamba.
A crise prolongada provocou desabastecimento de alimentos, combustíveis, medicamentos e oxigênio medicinal em várias cidades, com impacto particular em La Paz e El Alto. Relatórios da Defensoría del Pueblo e de organizações de direitos humanos registram ao menos 16 vítimas fatais, a maioria por falta de atendimento médico devido às interrupções viárias. Empresários estimam perdas superiores a 2,7 mil milhões de dólares. A declaração de emergência autoriza militares a instalar postos de controle, proteger infraestruturas críticas e realizar detenções de até oito horas, enquanto o governo alerta que aqueles que persistirem nos bloqueios “enfrentarão todo o rigor da lei”.
A crise boliviana insere-se num quadro de forte ajuste económico promovido por Paz, um presidente de centro-direita que chegou ao poder em novembro de 2025, pondo fim a duas décadas de governos socialistas. Entre as medidas contestadas estão o corte abrupto de subsídios aos combustíveis, a reversão de reformas agrárias e as negociações com o Fundo Monetário Internacional para um pacote de financiamento de três mil milhões de dólares. Os protestos, inicialmente focados na carestia de vida e na escassez de dólares, evoluíram para um movimento político que exige a renúncia do chefe de Estado. Na perspetiva de Brasília, a situação é acompanhada com preocupação, uma vez que o Brasil partilha uma extensa fronteira com a Bolívia e teme efeitos colaterais na segurança regional. Observadores em Lisboa notam que a União Europeia e a Organização dos Estados Americanos poderão pressionar por uma saída negociada, numa altura em que o Congresso boliviano se prepara para decidir nos próximos dias se mantém ou revoga a medida de exceção.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Apesar do acordo entre governo e sindicato após 50 dias de protestos, a mobilização dos apoiadores de Morales continua, com agricultores indígenas endurecendo sua posição e o ex-presidente alertando para um desfecho violento se o voto não for respeitado. A crise está longe de acabar.
Após seis semanas de protestos e bloqueios de estradas que perturbaram a vida quotidiana, o governo boliviano e a principal confederação sindical assinaram um acordo para suspender as medidas de pressão e restaurar a calma. O acordo é uma resolução pragmática da crise imediata.
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