
Adiadas negociações EUA-Irão na Suíça; Teerão condiciona diálogo ao cessar-fogo no Líbano
A primeira ronda de conversações técnicas prevista para esta sexta-feira no resort de Bürgenstock foi cancelada depois de Washington e Teerão suspenderem as viagens das respetivas delegações, num contexto de novos bombardeamentos israelitas no sul do Líbano.
As negociações entre os Estados Unidos e o Irão agendadas para 19 de junho no resort de montanha de Bürgenstock, na Suíça, não se realizarão, confirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros helvético. O anúncio surgiu horas depois de a Casa Branca ter comunicado que o vice-presidente J.D. Vance adiara a viagem por razões logísticas e de a agência Tasnim, citada por meios de comunicação regionais, indicar que a partida da delegação iraniana estava suspensa. O governo suíço afirmou que os trabalhos preparatórios prosseguem e que o país continua disponível para facilitar o diálogo quadrilateral que inclui o Qatar e o Paquistão como mediadores.
Na perspetiva de Teerão, a suspensão está diretamente ligada à evolução da frente libanesa. O canal pan-árabe Al-Mayadeen, próximo do Hezbollah, noticiou que o Irão informara Washington e os mediadores de que o dossiê do Líbano é determinante para a continuidade ou interrupção das conversações. A ofensiva aérea israelita da madrugada de sexta-feira contra o sul do Líbano, que causou pelo menos 16 mortos segundo a agência noticiosa libanesa, foi interpretada por fontes iranianas como uma violação do memorando de entendimento assinado eletronicamente na quarta-feira pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian. O primeiro ponto desse documento de 14 artigos prevê o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano.
Em Washington, a administração Trump atribuiu o adiamento à complexidade logística de uma negociação que envolve múltiplos atores e deslocou o foco para o início do período de 60 dias de conversações técnicas sobre o programa nuclear iraniano, que o vice-presidente Vance declarou já estar em curso. Apesar do contratempo diplomático, as medidas de desescalada previstas no memorando começaram a ser aplicadas: os Estados Unidos suspenderam o bloqueio naval aos portos iranianos e o Irão reabriu o estreito de Ormuz, onde os primeiros petroleiros sauditas e um navio francês de gás natural liquefeito voltaram a transitar, mediante autorização de um novo organismo estatal iraniano que não cobrará taxas durante a fase negocial.
O memorando, que prevê um fundo de reconstrução de 300 mil milhões de dólares e o levantamento progressivo de sanções, enfrenta resistências internas nos dois países. O líder supremo iraniano, ayatollah Mojtaba Khamenei, declarou ter aprovado o texto com reservas, sublinhando que futuras negociações presenciais não significam aceitação do ponto de vista do “inimigo”. Do lado republicano no Congresso norte-americano, senadores como Bill Cassidy criticaram o acordo como uma concessão excessiva, enquanto o presidente Trump o descreveu como equivalente a uma “rendição incondicional” iraniana. O Pentágono, entretanto, informou o Legislativo de que necessita de cerca de 80 mil milhões de dólares adicionais para cobrir os custos do conflito.
Para observadores em Lisboa e Brasília, o impasse ilustra a fragilidade de uma arquitetura de paz que depende da contenção de um ator não signatário — Israel — cujo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, reiterou que as tropas permanecerão no sul do Líbano “enquanto as necessidades de segurança o exigirem”. A diplomacia suíça mantém os preparativos no terreno, mas não foi anunciada uma nova data para o encontro. O relógio dos 60 dias, porém, já está a contar, e a pressão dos mercados petrolíferos — com o barril a recuar para valores próximos dos anteriores à guerra — continuará a pesar sobre todas as partes.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O encontro na Suíça foi cancelado, mas a delegação iraniana já havia suspendido a partida. O memorando já foi assinado pelos presidentes, tornando a cerimônia desnecessária. Os problemas logísticos americanos não afetam o acordo já concluído.
O vice-presidente dos EUA cancelou a viagem de última hora, alegando logística imprevisível. A Casa Branca promete iniciar conversações técnicas assim que possível, mas a cerimônia foi cancelada. O Irã lembra que o acordo já está assinado. Este episódio expõe a natureza caótica da diplomacia americana e a fragilidade de tais acordos.
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