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Geopolítica & Políticaquarta-feira, 1 de julho de 2026

Trump acusa China de tentar controlar Canal do Panamá e reacende tensão estratégica

Presidente dos EUA promete impedir influência chinesa sobre a via interoceânica; Panamá recorre à ONU e Pequim denuncia 'hegemonia' externa.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quarta-feira que Washington não permitirá que a China assuma o controlo do Canal do Panamá, durante a inauguração da Biblioteca Presidencial Theodore Roosevelt, em Medora, Dakota do Norte. Trump classificou como “estúpido” o erro de ter transferido a soberania da via para o Panamá em 1999, ao abrigo dos Tratados Torrijos-Carter de 1977, e acusou o país centro-americano de multiplicar as taxas de trânsito após assumir a gestão. “Agora a China está a tentar tomar conta do Canal do Panamá, e não vamos deixar que isso aconteça”, declarou, num discurso que também incluiu críticas a Espanha por ter negado o uso de bases militares durante operações contra o Irão e elogios a uma decisão do Supremo Tribunal que reforça os poderes presidenciais.

A reação do Panamá foi imediata. Em janeiro, após declarações semelhantes de Trump, o embaixador panamiano junto da ONU, Álvaro de Alba, apresentou uma queixa formal invocando a proibição de ameaças de uso da força prevista na Carta das Nações Unidas. Em fevereiro, o governo panamiano assumiu temporariamente a administração dos portos de Balboa e Cristóbal, nas duas entradas do canal, depois de o Supremo Tribunal ter declarado inconstitucional a lei de 1997 que concedia a concessão à Panama Ports Company, subsidiária do grupo Hutchison, com sede em Hong Kong. Pequim, através do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado, considerou a decisão “despropositada” e uma violação dos direitos da CK Hutchison, que moveu uma ação judicial contra o Estado panamiano. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, já havia afirmado em março que a relação bilateral não deveria estar sujeita a “ingerências de terceiros”, numa alusão à pressão norte-americana.

A importância do canal para o comércio mundial explica a intensidade do diferendo. A via de 82 quilómetros, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, movimenta cerca de 40% do tráfego de contentores dos EUA, o equivalente a mais de 270 mil milhões de dólares em carga por ano, e encurta rotas marítimas de forma decisiva para economias como as do Chile, Japão, Coreia do Sul e, naturalmente, a China. Para o Brasil, que utiliza o canal para escoar commodities para a Ásia e aceder à costa leste norte-americana, qualquer perturbação ou aumento de custos teria impacto direto nas cadeias de abastecimento. Observadores em Lisboa notam que a estabilidade da via é igualmente crítica para os portos portugueses que servem de plataforma atlântica para o comércio europeu. Nos países africanos de língua oficial portuguesa, como Angola e Moçambique, a rota pelo Panamá é relevante para as exportações de recursos naturais para os mercados asiáticos.

A tensão atual insere-se num contexto de competição geopolítica mais ampla. Na perspetiva de Washington, a presença de empresas chinesas na gestão de infraestruturas portuárias estratégicas é vista como uma ameaça à segurança nacional e à liberdade de navegação. Pequim, por seu lado, acusa o Panamá de ceder ao que classifica como “hegemonia” e “intimidação”, alertando para possíveis consequências políticas e económicas. A administração Trump já havia sinalizado, antes do regresso à Casa Branca, que não excluía o uso de força económica ou militar para retomar o controlo da via, construída pelos EUA no início do século XX e transferida para a soberania panamiana no final do milénio.

O dossiê permanece em aberto em várias frentes. A queixa panamiana na ONU aguarda desenvolvimento, enquanto o litígio judicial da CK Hutchison contra o Panamá prossegue nos tribunais. A retórica de Trump, ao reafirmar que os EUA “não vão permitir” a influência chinesa, mantém a pressão sobre o governo panamiano e sinaliza que a questão continuará a marcar a agenda bilateral e a dinâmica da região.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Imprensa latino-americanaImprensa do Golfo árabe
Imprensa latino-americana/ Mercado
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Latin America sees Trump's accusation as yet another US interference in the region. Panama's sovereignty is defended as a non-negotiable principle, while Washington's rhetoric is denounced as instrumental and neocolonial. The canal is a symbol of national pride, not a battleground between superpowers.

Imprensa do Golfo árabe/ Catariana
PragmatismoDistanciamento

Gulf media report the Panama Canal dispute as a geopolitical tension between the US and China, without taking sides. The focus is on implications for global trade and regional stability, with a cautious and measured tone. The matter is framed as normal great-power friction, not an imminent crisis.

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Trump acusa China de tentar controlar Canal do Panamá e reacende tensão estratégica

Presidente dos EUA promete impedir influência chinesa sobre a via interoceânica; Panamá recorre à ONU e Pequim denuncia 'hegemonia' externa.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quarta-feira que Washington não permitirá que a China assuma o controlo do Canal do Panamá, durante a inauguração da Biblioteca Presidencial Theodore Roosevelt, em Medora, Dakota do Norte. Trump classificou como “estúpido” o erro de ter transferido a soberania da via para o Panamá em 1999, ao abrigo dos Tratados Torrijos-Carter de 1977, e acusou o país centro-americano de multiplicar as taxas de trânsito após assumir a gestão. “Agora a China está a tentar tomar conta do Canal do Panamá, e não vamos deixar que isso aconteça”, declarou, num discurso que também incluiu críticas a Espanha por ter negado o uso de bases militares durante operações contra o Irão e elogios a uma decisão do Supremo Tribunal que reforça os poderes presidenciais.

A reação do Panamá foi imediata. Em janeiro, após declarações semelhantes de Trump, o embaixador panamiano junto da ONU, Álvaro de Alba, apresentou uma queixa formal invocando a proibição de ameaças de uso da força prevista na Carta das Nações Unidas. Em fevereiro, o governo panamiano assumiu temporariamente a administração dos portos de Balboa e Cristóbal, nas duas entradas do canal, depois de o Supremo Tribunal ter declarado inconstitucional a lei de 1997 que concedia a concessão à Panama Ports Company, subsidiária do grupo Hutchison, com sede em Hong Kong. Pequim, através do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado, considerou a decisão “despropositada” e uma violação dos direitos da CK Hutchison, que moveu uma ação judicial contra o Estado panamiano. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, já havia afirmado em março que a relação bilateral não deveria estar sujeita a “ingerências de terceiros”, numa alusão à pressão norte-americana.

A importância do canal para o comércio mundial explica a intensidade do diferendo. A via de 82 quilómetros, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, movimenta cerca de 40% do tráfego de contentores dos EUA, o equivalente a mais de 270 mil milhões de dólares em carga por ano, e encurta rotas marítimas de forma decisiva para economias como as do Chile, Japão, Coreia do Sul e, naturalmente, a China. Para o Brasil, que utiliza o canal para escoar commodities para a Ásia e aceder à costa leste norte-americana, qualquer perturbação ou aumento de custos teria impacto direto nas cadeias de abastecimento. Observadores em Lisboa notam que a estabilidade da via é igualmente crítica para os portos portugueses que servem de plataforma atlântica para o comércio europeu. Nos países africanos de língua oficial portuguesa, como Angola e Moçambique, a rota pelo Panamá é relevante para as exportações de recursos naturais para os mercados asiáticos.

A tensão atual insere-se num contexto de competição geopolítica mais ampla. Na perspetiva de Washington, a presença de empresas chinesas na gestão de infraestruturas portuárias estratégicas é vista como uma ameaça à segurança nacional e à liberdade de navegação. Pequim, por seu lado, acusa o Panamá de ceder ao que classifica como “hegemonia” e “intimidação”, alertando para possíveis consequências políticas e económicas. A administração Trump já havia sinalizado, antes do regresso à Casa Branca, que não excluía o uso de força económica ou militar para retomar o controlo da via, construída pelos EUA no início do século XX e transferida para a soberania panamiana no final do milénio.

O dossiê permanece em aberto em várias frentes. A queixa panamiana na ONU aguarda desenvolvimento, enquanto o litígio judicial da CK Hutchison contra o Panamá prossegue nos tribunais. A retórica de Trump, ao reafirmar que os EUA “não vão permitir” a influência chinesa, mantém a pressão sobre o governo panamiano e sinaliza que a questão continuará a marcar a agenda bilateral e a dinâmica da região.

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