
Irã cobrará taxas no Estreito de Ormuz e dará tratamento especial a países aliados
Embaixador iraniano em Pequim anuncia cobrança de taxas para navios no estreito, com isenções a nações 'amigas', enquanto tráfego marítimo se recupera com cautela após guerra.
O Irã anunciou, neste sábado (4), que passará a cobrar taxas de serviço para a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio global de petróleo e gás. A declaração foi feita pelo embaixador iraniano em Pequim, Abdolreza Rahmani Fazli, durante o Fórum Mundial da Paz, na capital chinesa. Segundo o diplomata, os países que se mantiveram "amigos" e apoiaram Teerã durante a guerra no Oriente Médio receberão "tratamento especial" – um aceno que, na leitura de analistas em Moscou e Pequim, sinaliza uma tentativa de consolidar alianças geopolíticas regionais.
A medida surge num momento de transição: o acordo inicial entre Irã e Estados Unidos, que encerrou as hostilidades em junho, previa 60 dias de trânsito gratuito pelo estreito, prazo que está a expirar. Teerã insiste que as taxas se justificam por serviços de segurança, supervisão de tráfego e gestão de impactos ambientais, e nega que se trate de uma "portagem". Washington, porém, rejeita a imposição unilateral e continua a dar suporte às travessias pela costa de Omã. Dados do Joint Maritime Information Center mostram que, entre 30 de junho e 1.º de julho, 59 dos 65 navios que cruzaram o lado omanita o fizeram com apoio norte-americano. Paralelamente, pelo menos oito embarcações deram meia-volta entre sexta e sábado, optando depois pela rota designada pelo Irã, o que evidencia a tensão persistente.
Para o mercado global de energia, a incerteza é palpável. O Estreito de Ormuz escoa habitualmente cerca de um quinto do petróleo bruto e do gás natural liquefeito do mundo. Durante o conflito, o bloqueio iraniano fez disparar os preços; agora, o tráfego médio diário de navios de matérias-primas subiu para 34, um avanço significativo em relação aos meses de guerra, mas ainda muito aquém dos níveis anteriores. Empresas de navegação relatam ter recebido comunicações de rádio de forças iranianas exigindo autorização de Teerã para a travessia, e houve registos de ataques a navios que prosseguiram sem permissão. Na perspetiva de Brasília, grande exportador de petróleo que depende da estabilidade das rotas marítimas, a imposição de taxas e a fragmentação de facto do controlo do estreito podem gerar custos logísticos adicionais e volatilidade nos preços, afetando economias emergentes.
As negociações para um acordo permanente continuam, com Omã a desempenhar um papel de mediação. Enquanto isso, a comunidade internacional acompanha os desenvolvimentos com apreensão: a indefinição sobre o regime definitivo de travessia mantém os fretes sob pressão e alimenta o debate sobre a liberdade de navegação em águas contestadas. A próxima etapa será a formalização das “novas disposições” prometidas por Teerã, cujo teor poderá redefinir o equilíbrio de forças no Golfo Pérsico.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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