
Ebola atinge Kisangani e ensaio clínico de tratamentos arranca no Congo
Com primeiro caso na cidade estratégica de 1,5 milhão de habitantes, surto da estirpe Bundibugyo já causou 438 mortes; OMS inicia teste de dois fármacos enquanto desconfiança e malária agravam crise.
A confirmação do primeiro caso de Ébola em Kisangani, capital da província de Tshopo e centro comercial com 1,5 milhões de habitantes, alterou a dinâmica do surto que atinge o leste da República Democrática do Congo desde 15 de maio. A cidade, situada a cerca de 600 quilómetros do epicentro em Ituri, representa um nó de transportes cuja exposição ao vírus Bundibugyo — para o qual não existem vacinas nem tratamentos aprovados — eleva o risco de dispersão regional. Até 30 de junho, o Instituto Nacional de Saúde Pública congolês contabilizava 1.406 casos confirmados e 438 mortes, uma taxa de letalidade de 31%, com mais de 83% dos óbitos concentrados em Ituri e casos importados já detetados nas províncias vizinhas de Haut-Uele, Kivu Norte e Kivu Sul, além de 20 infeções no Uganda.
Perante a urgência, a Organização Mundial da Saúde lançou na quinta-feira o ensaio clínico PARTNERS, que avaliará dois fármacos experimentais — o anticorpo monoclonal MBP134 e o antiviral remdesivir — isoladamente e em combinação. O estudo, de desenho adaptativo e coordenado pelo Instituto Nacional de Investigação Biomédica de Kinshasa, o Instituto de Medicina Tropical da Bélgica e a Universidade de Oxford, inscreveu o primeiro doente e poderá gerar evidência ainda durante o atual surto. A iniciativa é apoiada pelo Africa CDC e surge num contexto em que, segundo a OMS, cerca de 210 pessoas já recuperaram, mas a ausência de terapêuticas específicas limita a resposta.
No terreno, a intervenção sanitária enfrenta obstáculos que vão além da biologia do vírus. Em Nia Nia, zona de saúde de Ituri, um centro de tratamento foi incendiado por manifestantes que negam a existência da doença, forçando a fuga de doentes suspeitos e a recuperação ilegal de cadáveres altamente infecciosos. Paralelamente, responsáveis humanitários e peritos em malária alertam que o colapso da confiança nas unidades de saúde e o cancelamento de campanhas de distribuição de mosquiteiros em Ituri e Kivu Norte, por razões de segurança, podem fazer da malária uma causa de morte superior à do próprio Ébola. O Uganda, que não regista novos casos de Ébola desde 21 de junho, notificou entretanto um caso de vírus de Marburg numa criança no distrito de Kyegegwa, detetado pela vigilância reforçada, sem que os contactos identificados tenham desenvolvido sintomas.
A resposta internacional mobilizou o coordenador sénior da ONU para o Ébola, Julien Harneis, e a visita do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa a Kinshasa, onde se apelou a que a comunidade global evite restrições de viagem e reforce o financiamento. O Africa CDC estima necessidades de 1,4 mil milhões de dólares, mas até agora apenas 120 milhões foram entregues. O ensaio PARTNERS, cujos resultados preliminares poderão chegar dentro de meses, e a distribuição de stocks de antimaláricos em curso são os próximos marcos observáveis para conter uma crise que, na leitura de Kinshasa, já não conhece fronteiras.
| Imprensa africana subsaariana | −0.70 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa do Golfo árabe | 0.00 | neutral |
| Imprensa do Sudeste Asiático | 0.00 | neutral |
O governo congolês e os órgãos de saúde regionais condenam o apoio internacional insuficiente e apelam a uma ação urgente.
Ao destacar o custo humano e contrastá-lo com a resposta global atrasada, cria-se uma narrativa de abandono e negligência.
Os primeiros alertas da OMS e os próprios atrasos do governo congolês na implementação de medidas de contenção são omitidos.
Os países do Golfo avaliam o surto como uma ameaça económica e sanitária, apelando a medidas de controlo fronteiriço e cooperação com a OMS.
Ao enquadrar o surto na linguagem técnica da gestão de riscos e do impacto económico, normaliza-se uma resposta baseada em interesses nacionais.
A dimensão humanitária e a necessidade de solidariedade global são omitidas, focando apenas nos efeitos tangíveis para os seus próprios países.
As autoridades de saúde do Sudeste Asiático promovem a partilha de dados e a rápida mobilização de recursos médicos, enfatizando a cooperação técnica.
Ao enfatizar os sucessos passados na gestão de surtos e a linguagem da solidariedade técnica, projeta-se uma imagem de competência e prontidão.
As críticas à lentidão internacional e as dificuldades políticas locais são omitidas, focando apenas nos aspetos técnicos.
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