
Sono fora da faixa ideal acelera envelhecimento e eleva risco cardiovascular, mostram estudos
Dormir menos de seis horas ou mais de oito está associado a maior mortalidade e danos em órgãos, enquanto a apneia não tratada agrava o quadro.
Um estudo com centenas de milhares de participantes da base britânica UK Biobank, publicado na Nature Aging, revelou que a duração do sono desenha uma curva em U sobre o envelhecimento biológico: entre 6,5 e 8 horas por noite, os marcadores de idade de órgãos como cérebro, fígado e pâncreas são mais baixos. Fora dessa faixa, o risco de mortalidade por todas as causas sobe cerca de 50% para quem dorme menos de seis horas e 40% para quem ultrapassa as oito. Paralelamente, uma análise com quase 890 mil idosos nos Estados Unidos, publicada no JAMA Network Open, mostrou que o tratamento da apneia obstrutiva do sono com pressão positiva reduziu a mortalidade geral em 47% e os eventos cardiovasculares maiores em 10%.
O mecanismo central identificado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, a partir de dados de 4.500 adultos, é a carga hipóxica — a queda acumulada de oxigénio durante as pausas respiratórias noturnas. Cada redução na oxigenação elevou em 45% o risco de um primeiro evento cardiovascular, e a obstrução da via aérea explicou 38% desse risco, independentemente da obesidade ou da função pulmonar. A privação de sono, mesmo que por uma única noite, altera o metabolismo: aumenta a oxidação de gorduras em 15% como resposta de stresse, mas reduz a sensibilidade à insulina e eleva o cortisol, conforme investigações com adultos jovens. Já o sono excessivo pode ser um marcador precoce de doenças neurodegenerativas: uma meta-análise da Universidade de York associou mais de oito horas de sono a um risco 28% maior de demência.
Na América Latina, os números reforçam a urgência de diagnóstico. No México, 27,3% dos homens e 22,5% das mulheres têm alta probabilidade de apneia, e o Instituto Nacional de las Personas Adultas Mayores alerta que o subdiagnóstico é frequente porque os sintomas se confundem com o envelhecimento normal. Apenas 32,6% dos idosos diagnosticados iniciaram tratamento. No Brasil, o neurologista Alan Eckeli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), sublinha que a duração do sono não basta como indicador: despertares frequentes e sonolência diurna excessiva sinalizam má qualidade. Na Argentina, o cardiologista Jorge Tartaglione lembra que 40% dos adultos têm colesterol elevado e que as estatinas, associadas a uma dieta rica em fibras vegetais, são eficazes, embora circulem notícias falsas que geram desconfiança.
A qualidade do sono também afeta a consolidação da memória: a psicologia cognitiva mostra que quem desperta lentamente e mantém curiosidade pelos próprios pensamentos recorda mais os sonhos, mas o fenómeno não altera o risco cardiovascular. O próximo passo, segundo investigadores, é a realização de ensaios clínicos que testem intervenções no sono — como o tratamento da apneia ou a regularização de horários — como forma de reduzir eventos cardiovasculares e travar o envelhecimento precoce dos órgãos. Enquanto isso, hábitos pós-jantar como uma caminhada de 10 a 20 minutos e o planeamento de refeições ricas em fibras solúveis e gorduras insaturadas são medidas de baixo custo com potencial de impacto na saúde metabólica.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os distúrbios do sono são uma epidemia silenciosa na América Latina, com milhões de pessoas parando de respirar à noite sem saber. Tanto a privação quanto o excesso de sono estão agora ligados ao envelhecimento biológico acelerado, ao risco cardiovascular e até à demência. As autoridades de saúde pedem que se entenda que sacrificar o descanso não é produtividade, mas uma ameaça direta ao bem-estar a longo prazo.
Um grande estudo publicado na Nature Aging confirma que dormir muito pouco ou muito acelera o relógio biológico. Não existe uma fórmula universal, mas a pesquisa indica claramente que os excessos são inimigos do envelhecimento saudável. As descobertas reforçam uma abordagem moderada e baseada em evidências para a duração do sono.
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