
Sob o calor de Paris, a alta-costura transforma-se em palco de metamorfoses
Na semana de moda mais artesanal, estilistas fizeram da transformação das peças — e dos corpos — o fio condutor das coleções, da reversibilidade de Mabille ao lirismo escultórico de Dior.
Sob um calor invulgar que vergava a silhueta habitual da cidade, o desfile de Alexis Mabille ofereceu uma imagem que condensava o espírito da semana. Dois assistentes aproximavam-se de uma modelo, puxavam painéis laterais de um casaco preto e, num gesto contínuo, viravam a peça do avesso. O que era escuridão tornava-se uma superfície de cristal rosado; uma capa de cetim, ao ser desdobrada, revelava um vestido de noiva com corpete de brocado. A assistência, ainda a abanar-se do calor, assistia à metamorfose como quem observa um truque de prestidigitação que, em vez de esconder, desvendava.
A coleção “Dual” de Mabille não foi um caso isolado. Observadores do Golfo Pérsico notaram que a estação pareceu abraçar, de forma consciente, o irracional como única função remanescente da alta-costura. Jonathan Anderson, na Dior, partiu da obra da escultora Lynda Benglis para tratar o tecido como matéria tridimensional: plissados manuais, nós e drapeados transformavam vestidos e casacos em volumes que se sustentavam por si, sem se limitarem a seguir o corpo. A investigação levou-o ainda à Índia, onde fragmentos de chintz do século XVIII foram incorporados em malas, num diálogo entre o verde de Ahmedabad e a aridez de Santa Fé. Já Matthieu Blazy, na Chanel, povoou o Grand Palais com caules gigantes e flores desmesuradas, mas foram os acessórios — chapéus-ninho, sapatos em forma de vagem — que sublinharam uma lógica de conto de fadas. A coleção, porém, fechou com um vestido preto curto, quebrando seis décadas de tradição nupcial, um gesto lido por analistas europeus como uma afirmação de independência criativa.
A ideia de que a peça de roupa pode conter múltiplas identidades ecoou também no Líbano. A imprensa de Beirute destacou a coleção de Elie Saab, “The Ball of Untamed Dreams”, como um ponto de viragem: o criador, conhecido pelos vestidos de passadeira vermelha, apresentou uma narrativa onírica em que cada modelo parecia encarnar uma personagem, com máscaras e toucados escultóricos a construir uma mitologia pessoal. Em sentido oposto, Robert Wun, primeiro designer de Hong Kong a integrar o calendário oficial, transformou balões e brinquedos em silhuetas de alta-costura, numa homenagem ao imaginário de Hayao Miyazaki que, segundo comentadores asiáticos, fundiu a nostalgia da infância com uma teatralidade sombria. A Armani Privé, por sua vez, recolheu-se ao boudoir: Silvana Armani assinou uma coleção de linhas fluidas e veludos profundos, onde a sensualidade se insinuava na intimidade do vestir, longe do espetáculo.
Entre os rostos que povoaram as primeiras filas, Priyanka Chopra e Nick Jonas, Sabrina Carpenter e a libanesa Razane Jammal assistiram à Dior, enquanto Tilda Swinton e a pugilista Imane Khelif marcaram presença na Chanel. Mas foi fora dos holofotes que a semana guardou o seu enigma mais comentado: o vestido de noiva que Anderson desenhou para Taylor Swift, três dias antes do desfile, e que ninguém viu. No final, a imagem que perdurou não foi a de um véu ou de uma cauda bordada, mas a daquele vestido preto da Chanel — curto, simples, sem véu — a encerrar o desfile como quem fecha um livro de contos sem a página do “felizes para sempre”.
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A coleção de sonho de Elie Saab é celebrada como um triunfo da arte libanesa, onde a alta-costura se torna uma narrativa teatral de sonhos indomáveis. A voz é a de um orgulhoso insider cultural, elevando o trabalho do designer a um nível mítico.
O bloco usa hipérbole e linguagem poética para criar uma aura de transcendência, ignorando quaisquer desafios contextuais como a onda de calor ou o ceticismo da indústria, reforçando assim a ideia de que a couture é arte pura.
O bloco omite qualquer menção à onda de calor que afetou a semana, bem como perspectivas críticas sobre a relevância da couture ou os desfiles de outros designers. Essa omissão permite que a narrativa permaneça intocada pela realidade.
O bloco apresenta uma visão equilibrada, mas questionadora: enquanto admira a criatividade e transformação em coleções como as identidades duplas de Mabille e a fantasia infantil de Wun, também pergunta abertamente se a alta-costura tem lugar em um mundo ansioso. A voz é a de um observador informado, nem totalmente celebratório nem desdenhoso.
O bloco emprega uma técnica de contraste, justapondo os elementos fantásticos dos desfiles com a dura realidade da onda de calor e as dúvidas existenciais sobre a alta-costura, criando assim uma narrativa matizada que reconhece tanto a maravilha quanto o ceticismo.
O bloco não inclui nenhuma perspectiva dos próprios designers sobre a onda de calor ou as dúvidas da indústria; baseia-se em comentários externos. Além disso, omite o ângulo específico do orgulho cultural visto no bloco levantino.
A onda de calor é tecida na narrativa como um elemento poético que realça a magia da alta-costura, com as coleções de Dior e Armani vistas como visões nascidas do intenso trabalho dos ateliers. A voz é a de um comentarista cultural, apreciando a arte enquanto nota a exclusividade e a distância da vida cotidiana.
O bloco usa a descrição atmosférica para fundir o ambiente físico (calor) com o processo criativo, sugerindo que o desconforto da onda de calor paradoxalmente realça a beleza da alta-costura, naturalizando assim o evento como parte da experiência artística.
O bloco omite qualquer questionamento crítico sobre a relevância da alta-costura ou as pressões econômicas; permanece dentro do quadro estético. Também não menciona outros designers como Elie Saab ou os desfiles mais experimentais.
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