
Sob a chuva de Écône, os lefebvrianos consagram bispos e desafiam o Papa
A Fraternidade São Pio X ordenou quatro bispos sem mandato papal, consumando um cisma e a excomunhão automática, apesar do apelo de Leão XIV.
A chuva caiu com força sobre a planície de Écône no final da manhã de 1 de julho, obrigando milhares de fiéis a procurar abrigo sob uma grande tenda branca. Lá dentro, enquanto o órgão soava e o incenso se misturava ao cheiro de terra molhada, um código QR apareceu discretamente no canto do ecrã da transmissão em direto, convidando a donativos remotos. A cerimónia, transmitida em sete línguas, exibia a convivência entre o rito tridentino do século XVI e as ferramentas digitais do século XXI.
Foi nesse cenário que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre em 1970, consagrou quatro novos bispos sem o mandato do Papa Leão XIV. Os eleitos — o suíço Pascal Schreiber, o norte-americano Michael Goldade e os franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier — prostraram-se diante do altar enquanto o bispo Alfonso de Galarreta, ele próprio ordenado ilegalmente em 1988, lhes impunha as mãos. O superior-geral, Davide Pagliarani, declarou na homilia que estavam “prontos a pagar qualquer preço para salvar a Igreja”, rejeitando o dilema entre fé e obediência.
O gesto repete, com precisão quase litúrgica, o cisma de 1988, quando Lefebvre consagrou quatro bispos contra a vontade de João Paulo II, incorrendo em excomunhão automática — sanção que Bento XVI levantaria em 2009, num esforço de reconciliação que nunca se completou. A Fraternidade, que conta com cerca de 600 mil fiéis, 751 sacerdotes e presença em mais de 75 países, rejeita as reformas do Concílio Vaticano II, em particular a liberdade religiosa, o ecumenismo e a missa em vernáculo. Para os seus membros, a Igreja pós-conciliar teria cedido ao modernismo, e só eles guardariam a verdadeira fé. Na perspetiva de teólogos europeus, porém, essa posição encerra uma contradição: ao desobedecer ao Papa em nome da tradição, o grupo aproxima-se mais da lógica protestante do que da católica, como notou o cardeal Gerhard Ludwig Müller.
A celebração atraiu delegações de 17 mil pessoas, segundo a organização, e foi acompanhada por milhares online. Entre os presentes, viam-se representantes da extrema-direita italiana, como o ex-deputado Mario Borghezio e o líder do Forza Nuova, Roberto Fiore, que saudaram a “bandeira da Tradição”. O Vaticano, pela voz do cardeal secretário de Estado Pietro Parolin, manifestou “profunda dor” e confirmou a excomunhão latae sententiae, mas deixou a porta aberta ao diálogo. Em países de língua portuguesa, onde a Fraternidade mantém priorados, o impacto é limitado, mas o acontecimento reaviva debates sobre o lugar do tradicionalismo na Igreja.
No final da missa de quatro horas, a tempestade já tinha passado, mas o terreno lamacento guardava as marcas da multidão. À saída, os fiéis podiam comprar embalagens de vinho suíço com o rótulo “Écône 2026”, estampado com uma mitra episcopal, e bonés com o mesmo selo. A imagem dos paramentos molhados, usados já em 1988, e dos novos bispos a erguer a mitra sob o céu ainda carregado, resumia a obstinação de um movimento que insiste em existir à margem, mas com os olhos postos no centro de Roma.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os lefebvrianos consumaram o cisma ao ordenar quatro bispos sem mandato pontifício, ignorando o apelo sincero do Papa. A excomunhão automática foi acionada, tal como em 1988, e a túnica de Cristo foi novamente rasgada. A cerimónia, transmitida em direto, representa um desafio aberto à autoridade da Igreja.
O grupo tradicionalista ordenou quatro bispos sem a aprovação papal, apesar de um apelo de última hora. O Vaticano reagiu negativamente, classificando o ato como cismático e acionando a excomunhão. A cerimônia ocorreu na Suíça diante de milhares de fiéis.
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