
Negociações em Doha focam taxas de Ormuz e ativos iranianos
Washington alerta Teerão de que a imposição de portagens no estreito pode inviabilizar um acordo nuclear abrangente, enquanto se esboça um entendimento sobre uma primeira tranche de fundos congelados.
As conversações técnicas indiretas entre os Estados Unidos e o Irão foram retomadas na quarta-feira em Doha, com o futuro da navegação no Estreito de Ormuz no centro da agenda. Segundo fontes diplomáticas citadas pela imprensa internacional, a administração norte-americana procura dissuadir Teerão de avançar com a cobrança de taxas de trânsito a navios, uma exigência que, na perspetiva de Washington, pode fazer colapsar as hipóteses de um acordo nuclear definitivo. Em paralelo, registou-se um princípio de entendimento sobre a libertação de uma primeira parcela de ativos iranianos congelados, no valor de três mil milhões de dólares, que não será transferida em numerário, mas sim canalizada para a compra de bens essenciais, parte dos quais de origem norte-americana.
A mensagem central transmitida pelos enviados especiais da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner, aos mediadores qataris e paquistaneses, e por estes à delegação iraniana, é a de que os ganhos económicos decorrentes do levantamento de sanções no quadro de um pacto alargado — incluindo a venda livre de petróleo — seriam muito superiores às receitas que Teerão poderia obter com a taxação da passagem pelo estreito. “Pensem em grande”, terá sido o recado, de acordo com um responsável norte-americano. Do lado iraniano, a delegação chefiada pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, concentrou-se na execução de cinco pontos do memorando de entendimento, com prioridade para o descongelamento de ativos, antes de abordar outros dossiês.
As reuniões, que decorrem sem contacto direto entre as partes, inscrevem-se no memorando de entendimento assinado em Islamabade, com mediação do Qatar e do Paquistão, que estabelece um prazo de sessenta dias — renovável — para se alcançar um acordo final. A ronda atual foi precedida por um entendimento de acalmia de uma semana no Estreito de Ormuz, destinado a criar um ambiente propício ao progresso técnico. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a estabilidade da via marítima, por onde transita uma parte significativa do comércio energético mundial, é acompanhada com atenção pelas diplomacias lusófonas, dadas as implicações para a segurança energética global e para as economias dependentes de importações.
Na agenda figuram ainda o cessar-fogo no Líbano e a retirada israelita de duas zonas no sul do país, apresentada por Washington como um possível primeiro passo para desengajamentos adicionais. O porta-voz da diplomacia qatari, Majed al-Ansari, confirmou a conclusão das sessões separadas com os negociadores e anunciou que as partes acordaram prosseguir as discussões, ficando a data do próximo encontro por marcar, a definir logo após as cerimónias fúnebres do anterior guia supremo iraniano. Apesar dos sinais de progresso, a própria administração norte-americana nega, para já, qualquer acordo formal sobre a libertação de fundos, e analistas do Golfo sublinham que a fragilidade do processo mantém o desfecho incerto.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A mídia iraniana relata que Teerã e Washington chegaram a um entendimento sobre a primeira parcela de ativos congelados, ao mesmo tempo que enfatiza que os enviados dos EUA alertaram que a exigência iraniana de taxas de trânsito no Estreito de Ormuz poderia inviabilizar todo o acordo. A narrativa destaca o foco do Irã em obter alívio econômico e retrata os EUA tentando dissuadir Teerã prometendo maiores benefícios de um acordo nuclear. O tom é cautelosamente otimista quanto à liberação dos ativos, mas cético em relação às intenções americanas.
O lado americano enquadra as conversações de Doha como um esforço para convencer o Irã de que os ganhos econômicos de um acordo nuclear abrangente, incluindo a venda livre de petróleo, superam em muito qualquer receita com taxas de trânsito no Estreito de Ormuz. Autoridades americanas estão enviando uma mensagem clara de que insistir nas taxas destruiria as chances de um acordo. A narrativa enfatiza o pragmatismo de escolher benefícios de longo prazo em vez de ganhos de curto prazo.
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