
Sem ajuste fiscal, dívida da Colômbia pode atingir 66,6% do PIB em 2027, alerta CARF
O Comité Autónomo da Regra Fiscal projeta que a dívida líquida chegará a 61% do PIB em 2026, o nível mais alto da história, e que o défice fiscal pode tornar-se insustentável sem medidas de grande escala.
A atualização do cenário fiscal colombiano revela um descolamento crítico entre as projeções oficiais e as estimativas independentes. O Comité Autónomo da Regra Fiscal (CARF) advertiu que, sem um ajuste estrutural, a dívida pública bruta poderá escalar até 66,6% do PIB em 2027, aproximando-se do limite de 71% fixado pela regra fiscal. A entidade calcula que a dívida líquida já atingirá 61% do PIB em 2026, o patamar mais elevado de que há registo, enquanto o défice primário — excluindo juros — poderá duplicar a previsão do Ministério da Fazenda, alcançando 4,1% do PIB. A diferença decorre de uma estimativa de gastos de funcionamento e investimento 39,6 biliões de pesos (cerca de 2% do PIB) acima do projetado pelo Governo, num momento em que 58,1% do teto de investimento já está comprometido.
O mecanismo de deterioração é amplificado pelo serviço da dívida. Com as taxas dos títulos do Tesouro (TES) a superarem os 12% nas colocações de junho — apesar da forte procura, que permitiu duplicar o montante inicialmente convocado para 5 biliões de pesos —, o custo de financiamento permanece elevado. A Universidade Eafit sublinha que o défice primário persistente, combinado com taxas de juro acima de 13% nos prazos mais longos, gera uma “bola de neve fiscal”: os juros absorverão um de cada três pesos da receita em 2026, num serviço da dívida que ascende a 190 biliões de pesos. A perda do grau de investimento desde 2021 e as sucessivas descidas de notação pelas agências S&P e Moody’s refletem a menor flexibilidade fiscal e a reduzida previsibilidade da política económica.
Na perspetiva de Bogotá, o Governo ainda aposta numa reforma tributária que arrecadaria 1,4% do PIB, a ser apresentada ao Congresso a 20 de julho, mas o CARF não a incorpora nas suas projeções por falta de detalhes concretos. Sem essa iniciativa, o ajuste necessário para cumprir a meta de défice primário de 0,5% do PIB em 2027 ascenderia a 3,7% do PIB, entre cortes de despesa e aumentos de receita. O comité insiste que o anúncio de reformas não basta para restaurar a confiança dos mercados e que o incumprimento da meta de 2025 agravou a necessidade de consolidação. Caso o próximo governo não atue, o défice total poderá atingir 7,4% do PIB em 2026, um nível que o próprio CARF classifica como insustentável.
O contexto global reforça a urgência. Enquanto a França vê a sua dívida pública atingir 117,5% do PIB no primeiro trimestre de 2026, muito acima do limite de 60% de Maastricht, e a Ucrânia projeta um défice orçamental recorde de 2,04 biliões de grívnias em 2027, a Argentina enfrenta uma licitação decisiva para renovar 16,2 biliões de pesos em vencimentos do Tesouro. Em todos estes casos, a trajetória da dívida deixou de ser um problema transitório e passou a ser interpretada como uma rigidez estrutural. Para a Colômbia, o próximo marco factual será a apresentação da reforma tributária a 20 de julho, cujo conteúdo e viabilidade política determinarão se o país consegue evitar um cenário de stress financeiro com consequências potencialmente devastadoras.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O comitê fiscal autônomo alerta que, sem um ajuste em larga escala, a dívida bruta pode chegar a 66,6% do PIB até 2027, com a dívida líquida atingindo o recorde já em 2026. As premissas otimistas do governo correm o risco de aprofundar o déficit e tornar a crise inevitável.
Observadores internacionais manifestam preocupação crescente com a trajetória explosiva da dívida colombiana, alertando que a falta de disciplina fiscal pode minar a confiança dos investidores e provocar turbulências na região.
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