
Relatórios expõem escala da violência em Myanmar e na Nigéria: mais de 180 mil mortos
Dados de organizações independentes revelam que o conflito pós-golpe em Myanmar já matou mais de 100 mil pessoas, enquanto a violência na Nigéria ceifou quase 80 mil vidas em seis anos, com padrões de alvo religioso e étnico.
Dois levantamentos independentes, divulgados esta semana, quantificam o custo humano de conflitos prolongados na Ásia e em África. Em Myanmar, a organização norte-americana Acled contabiliza 100.114 mortos desde o golpe militar de fevereiro de 2021, que depôs o governo eleito de Aung San Suu Kyi e desencadeou uma guerra civil. Na Nigéria, o Observatório para a Liberdade Religiosa em África (ORFA) documenta 79.323 mortos e 34.773 raptos em violência de matriz terrorista entre 2020 e 2025. As duas crises, embora distantes, partilham a erosão do Estado, a multiplicação de grupos armados e um impacto desproporcional sobre civis.
Segundo a Acled, o conflito birmanês é hoje o mais letal da Ásia. A junta militar e as milícias de resistência — incluindo forças pró-democracia e grupos étnicos armados — são responsabilizadas por abusos contra a população. A Amnistia Internacional reporta que, só em 2025, mais de 7.000 civis morreram, o número mais elevado desde o golpe, com ataques aéreos a escolas, hospitais e zonas habitadas a aumentarem mais de 50% face a 2024, de acordo com o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos. O recrutamento forçado, o trabalho escravo e os centros de cibercrime onde se pratica tortura completam o quadro de violações. Mais de 3,5 milhões de pessoas permanecem deslocadas internamente, enquanto a economia colapsa e a fome se agrava nas zonas de conflito. A junta prepara eleições para dezembro, mas aprovou leis que punem críticas com prisão ou pena de morte.
Na Nigéria, o relatório do ORFA desafia a narrativa dominante sobre a insurgência. A análise de seis anos de incidentes indica que os grupos classificados como “grupos terroristas fulani” foram responsáveis por 44% das mortes de civis (18.577 vítimas), quatro vezes mais do que o Boko Haram e o Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) juntos, que somaram 12% (4.941 mortos). A organização sublinha que distingue as milícias armadas da população fulani no seu conjunto. O estudo revela ainda uma dimensão religiosa: 28.551 cristãos foram mortos contra 13.224 muçulmanos, e os cristãos raptados enfrentam resgates mais elevados, maior risco de execução e violência sexual, um padrão que o investigador Steven Kefas descreve como “um sistema consistente de triagem religiosa”. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a atenção internacional se concentrou no Boko Haram, subestimando outras dinâmicas de violência organizada.
Em contraste com a escalada de violência, o Serviço Correcional Nigeriano reporta que 1.271 condenados cumprem penas não privativas de liberdade, como serviço comunitário, liberdade condicional e justiça restaurativa. A reforma, introduzida em 2019, visa descongestionar as prisões e promover a reintegração, mas a sua aplicação permanece limitada face à dimensão da crise de segurança. O próximo passo conhecido no dossiê birmanês é a anunciada realização de eleições sob controlo militar, enquanto na Nigéria as autoridades correcionais procuram alargar as medidas não custodiais a mais estados, num contexto em que a violência contra comunidades agrícolas continua a deslocar milhões.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Mais de 100.000 pessoas morreram em Myanmar desde que o golpe de 2021 desencadeou uma guerra civil multifacetada. O conflito fragmentou-se em mais de mil grupos armados, com abusos generalizados contra civis. A comunidade internacional é instada a enfrentar uma catástrofe humanitária que continua a aprofundar-se.
Uma investigação de seis anos revela que 79.323 pessoas foram mortas e 34.773 raptadas em violência relacionada com o terrorismo na Nigéria entre 2020 e 2025. O relatório contesta o rótulo simplista de 'Boko Haram', argumentando que o mundo interpreta mal a complexa violência do país. Apela a uma compreensão mais matizada das dimensões religiosas e étnicas.
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