
O ultimato nos muros e o fantasma de 2008: a nova vaga de xenofobia na África do Sul
A ameaça pintada nas paredes sul-africanas desencadeou protestos, mortes e um braço de ferro diplomático que expõe as fraturas sociais do país e ecoa em todo o continente.
A 30 de junho, a data estava escrita nas paredes da África do Sul há semanas: um ultimato para que os migrantes irregulares abandonassem o país, sob pena de os grupos de vigilantes fazerem justiça pelas próprias mãos. A assinatura era de dois movimentos que se apresentam como defensores da ordem, a Operation Dudula e a March and March. Nesse dia, as ruas encheram-se de manifestantes. A maioria das marchas foi pacífica, segundo a polícia, mas em Joanesburgo e Durban houve tiros e migrantes foram expulsos das suas casas. O fantasma de 2008, quando a caça ao estrangeiro deixou mais de sessenta mortos, pairou sobre as cidades. Desta vez, porém, a violência não se esgotou num só dia: a March and March anunciou que voltará a sair à rua todas as quintas-feiras até às eleições autárquicas de novembro, transformando o calendário num ritual de exclusão.
A morte de um cidadão ganês, Bashiru Isak, durante as manifestações na Cidade do Cabo, e de dois nigerianos, Musa Yunana Joe e Charles Iroegbu, em circunstâncias ainda por esclarecer, acendeu o rastilho diplomático. O Gana declinou um pedido de visita de Estado do presidente Cyril Ramaphosa, argumentando que a segurança dos seus nacionais não estava garantida e que o ambiente de tensão toldaria as discussões bilaterais. A África do Sul, por sua vez, negou ter solicitado uma visita de Estado, afirmando que se tratava apenas de preparar a terceira sessão da Comissão Binacional entre os dois países. Enquanto Acra insistia na versão de que Isak foi morto por manifestantes anti-imigração, Pretória classificou a narrativa como “informação falsa” e rejeitou qualquer ligação entre as mortes e os protestos. O desencontro de versões revela uma ferida mais profunda: a dificuldade de conciliar a imagem de nação arco-íris com a realidade de um país onde um em cada três adultos está desempregado e a desigualdade é a mais alta do planeta.
A crise sul-africana é observada com particular atenção no mundo lusófono. Em Luanda e Maputo, a presença de comunidades migrantes na África do Sul torna o tema sensível, ainda que os governos não tenham emitido reações oficiais de monta. Em Lisboa, analistas recordam que a violência xenófoba não é um fenómeno isolado, mas ecoa tensões que a Europa também conhece, agravadas pela fragilidade dos serviços públicos e pela perceção de que o Estado perdeu o controlo. No Brasil, onde a população afrodescendente é maioritária, diplomatas acompanham o caso com a preocupação de quem vê na perseguição ao estrangeiro africano um espelho incómodo das suas próprias fraturas raciais, ainda que Brasília não tenha formalizado qualquer posição.
A resposta nigeriana foi a mais veemente. No Senado, em Abuja, ouviram-se apelos à rutura de relações diplomáticas e até à nacionalização de empresas sul-africanas como a MTN e a DStv, numa retaliação económica que acabou por ser rejeitada. A câmara alta optou por uma via mais cautelosa, exigindo garantias escritas de proteção aos cidadãos nigerianos, a compilação de um registo de vítimas para futura compensação e o envolvimento da União Africana na criação de um mecanismo de alerta precoce contra a xenofobia. O Gana, por seu lado, repatriou cerca de mil cidadãos e condicionou qualquer visita de alto nível ao restabelecimento da segurança. Em ambos os casos, a diplomacia cedeu à pressão das ruas e das redes sociais, onde a indignação se transformou em exigência de ação.
No centro do turbilhão, a March and March prometeu não parar. A cada quinta-feira, até novembro, as ruas sul-africanas serão palco de uma contagem de quem é considerado “a mais”. A imagem que fica não é a do banho de sangue que muitos temiam, mas a de um país que inscreveu a exclusão no seu calendário cívico, enquanto os voos de repatriação continuam a levar para casa os que a promessa do arco-íris deixou para trás.
| Imprensa europeia continental | −0.50 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa africana subsaariana | −0.80 | critical |
A Europa continental denuncia a violência xenófoba e dá voz às vítimas, criticando a deriva autoritária.
Ao contar histórias pessoais de migrantes e destacar o medo semanal, cria empatia e condena implicitamente a ação dos vigilantes.
As reações diplomáticas dos países africanos afetados, como a recusa do Gana à visita de Estado de Ramaphosa e as evacuações em massa, não são mencionadas.
A África subsaariana acusa a África do Sul de não proteger os migrantes e toma medidas diplomáticas concretas, como rejeitar a visita de Estado e organizar evacuações.
Ao relatar as ações oficiais do Gana e da Nigéria, transforma a violência xenófoba numa crise interestatal, legitimando a resposta dos países afetados.
O fato de a maioria dos protestos (108 em 120) ter sido pacífica segundo a polícia sul-africana não é relatado.
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