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Sociedade & Culturaquarta-feira, 8 de julho de 2026

O eco de Marina: quando a parentalidade deixa de ser destino

Uma frase dita entre mãe e filha em Buenos Aires condensa uma transformação demográfica global que já não cabe nas explicações simplistas sobre egoísmo ou feminismo.

“Não existe o direito de ser avó”, repetia Marina, advogada de 38 anos, à mãe Abigail, de 75. A cena, recolhida numa investigação da Universidade Austral, não é um retrato íntimo de ingratidão, mas a superfície de um tremor profundo. Na sala de um apartamento portenho, o que se ouvia era o ruído de um mundo onde a maternidade deixou de ser um mandato silencioso para se tornar uma opção que compete com carreiras, viagens e a companhia de gatos. A frase de Marina ecoa agora em dezenas de países, de Jacarta a Roma, e encontra respaldo nos números: pela primeira vez, a principal razão para não ter filhos já não é económica ou laboral — é a simples ausência desse projeto de vida.

O que parecia uma idiossincrasia geracional revelou-se um fenómeno com raízes partilhadas. Um inquérito do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), realizado em 73 países, concluiu que as restrições económicas — e não uma rejeição da vida familiar, do feminismo ou do egoísmo — são o que realmente limita a capacidade de muitos jovens de terem os filhos que desejam. O desejo de parentalidade permanece forte: 79% dos homens e 72% das mulheres entre os 35 e os 39 anos sem filhos ainda querem ser pais. No entanto, o relatório nota que o debate público se tem concentrado em perguntas erradas, questionando se os jovens ainda valorizam a família, em vez de examinar que condições são necessárias para que possam formar relações e criar os filhos. Em Jacarta, a vice-ministra da População e Desenvolvimento Familiar, Isyana Bagoes Oka, descreveu o mesmo impasse com uma expressão que corre nas redes sociais: “in this economy”. Para ela, a incerteza económica, o custo da habitação e a dificuldade de conciliar carreira e família não anulam o sonho de construir um lar, mas adiam-no indefinidamente.

A esta paisagem de desejos suspensos soma-se uma realidade clínica que se agrava. Uma projeção publicada na revista The Lancet estima que os casos globais de infertilidade feminina atinjam 80 milhões em 2036, um aumento de 1,5 vezes em relação a 2023, com a maior subida prevista para mulheres entre os 35 e os 39 anos. O adiamento da gravidez para uma idade mais madura, num contexto de transição socioeconómica acelerada, reduz a reserva ovárica e a eficácia das técnicas de reprodução assistida. Em muitos países em desenvolvimento, incluindo a Indonésia, o acesso a exames e tratamentos de fertilidade continua limitado pelos custos elevados, criando um círculo de silêncio. Ao mesmo tempo, em Itália, o presidente da Ibdo Foundation, Paolo Sbraccia, alertava para o aumento da prevalência da obesidade entre mulheres dos 18 aos 34 anos, justamente em idade fértil, um fator que pode influenciar a saúde materna e a das futuras gerações já durante a vida intrauterina.

Na Argentina, o Observatório do Desenvolvimento Humano e da Vulnerabilidade documentou uma queda de 31 pontos percentuais na valorização da parentalidade em apenas uma década: de 77% para 46%. A taxa de fecundidade desceu para 1,2 filhos por mulher, colocando o país ao lado do Chile, Uruguai e Costa Rica no grupo de fecundidade ultrabaxa da América Latina. O estudo revela que, entre os que não desejam ter filhos, 57,3% afirmam que a paternidade simplesmente não faz parte do seu projeto de vida. Um em cada quatro menciona o contexto ambiental, social ou político como motivo. Ainda assim, a vida familiar permanece uma fonte central de satisfação para a maioria, e o relatório do UNFPA sublinha que a alegria e a felicidade que as crianças trazem continuam a ser a razão mais citada para querer ser pai ou mãe.

A imagem que fica é a de um fio partido entre gerações. Abigail, a mãe de Marina, cresceu num tempo em que a realização pessoal passava quase inevitavelmente pela maternidade. Hoje, a filha carrega um mapa diferente, onde o afeto não se mede pelo número de netos. O que os dados mostram, de Buenos Aires a Roma, é que a decisão de não ter filhos raramente é um ato de egoísmo ou de desamor. É, antes, o reflexo de uma equação complexa que mistura carteiras vazias, corpos que envelhecem, sistemas de saúde que não chegam e a lenta construção de um novo sentido para a palavra “realização”.

Divergência — quem conta como
9%Baixa
3 blocos · posições de −0.20 a 0.00
CríticoFavorável
LATAFRSEA
Divergência entre blocos de imprensa
Imprensa latino-americana0.00neutral
Imprensa africana subsaariana−0.20neutral
Imprensa do Sudeste Asiático0.00neutral
Imprensa latino-americana0.00
Voz

Young Argentines choose career and personal freedom over parenthood.

Mecanismoindividualizzazione

The article uses a survey from a private university to present the decline in parenthood as a voluntary, value-driven shift, downplaying economic or structural factors.

Omissão

The article omits the economic constraints highlighted by the UN survey, such as financial insecurity and unstable employment, which are central to the African bloc's framing.

CeticismoPragmatismo
Imprensa africana subsaariana−0.20
Voz

Economic hardship, not feminism, prevents young people from starting families.

Mecanismocontronarrazione

The article universalizes the UN survey's findings to counter a common narrative, using authoritative data to shift blame from cultural values to economic structures.

Omissão

The article omits the medical infertility projections from the Southeast Asian bloc, which focus on age-related biological decline rather than economic factors.

PragmatismoCeticismo
Imprensa do Sudeste Asiático0.00
Voz

Global infertility will rise due to delayed motherhood, an inevitable biological fact.

Mecanismonaturalizzazione

The article presents a Lancet study as an objective scientific projection, using numbers to depoliticize the issue and frame it as a natural consequence of age, ignoring social or economic factors.

Omissão

The article omits the UN survey's finding that young people still want children but are blocked by economic constraints, which would complicate the biological determinism.

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

O eco de Marina: quando a parentalidade deixa de ser destino

Uma frase dita entre mãe e filha em Buenos Aires condensa uma transformação demográfica global que já não cabe nas explicações simplistas sobre egoísmo ou feminismo.

“Não existe o direito de ser avó”, repetia Marina, advogada de 38 anos, à mãe Abigail, de 75. A cena, recolhida numa investigação da Universidade Austral, não é um retrato íntimo de ingratidão, mas a superfície de um tremor profundo. Na sala de um apartamento portenho, o que se ouvia era o ruído de um mundo onde a maternidade deixou de ser um mandato silencioso para se tornar uma opção que compete com carreiras, viagens e a companhia de gatos. A frase de Marina ecoa agora em dezenas de países, de Jacarta a Roma, e encontra respaldo nos números: pela primeira vez, a principal razão para não ter filhos já não é económica ou laboral — é a simples ausência desse projeto de vida.

O que parecia uma idiossincrasia geracional revelou-se um fenómeno com raízes partilhadas. Um inquérito do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), realizado em 73 países, concluiu que as restrições económicas — e não uma rejeição da vida familiar, do feminismo ou do egoísmo — são o que realmente limita a capacidade de muitos jovens de terem os filhos que desejam. O desejo de parentalidade permanece forte: 79% dos homens e 72% das mulheres entre os 35 e os 39 anos sem filhos ainda querem ser pais. No entanto, o relatório nota que o debate público se tem concentrado em perguntas erradas, questionando se os jovens ainda valorizam a família, em vez de examinar que condições são necessárias para que possam formar relações e criar os filhos. Em Jacarta, a vice-ministra da População e Desenvolvimento Familiar, Isyana Bagoes Oka, descreveu o mesmo impasse com uma expressão que corre nas redes sociais: “in this economy”. Para ela, a incerteza económica, o custo da habitação e a dificuldade de conciliar carreira e família não anulam o sonho de construir um lar, mas adiam-no indefinidamente.

A esta paisagem de desejos suspensos soma-se uma realidade clínica que se agrava. Uma projeção publicada na revista The Lancet estima que os casos globais de infertilidade feminina atinjam 80 milhões em 2036, um aumento de 1,5 vezes em relação a 2023, com a maior subida prevista para mulheres entre os 35 e os 39 anos. O adiamento da gravidez para uma idade mais madura, num contexto de transição socioeconómica acelerada, reduz a reserva ovárica e a eficácia das técnicas de reprodução assistida. Em muitos países em desenvolvimento, incluindo a Indonésia, o acesso a exames e tratamentos de fertilidade continua limitado pelos custos elevados, criando um círculo de silêncio. Ao mesmo tempo, em Itália, o presidente da Ibdo Foundation, Paolo Sbraccia, alertava para o aumento da prevalência da obesidade entre mulheres dos 18 aos 34 anos, justamente em idade fértil, um fator que pode influenciar a saúde materna e a das futuras gerações já durante a vida intrauterina.

Na Argentina, o Observatório do Desenvolvimento Humano e da Vulnerabilidade documentou uma queda de 31 pontos percentuais na valorização da parentalidade em apenas uma década: de 77% para 46%. A taxa de fecundidade desceu para 1,2 filhos por mulher, colocando o país ao lado do Chile, Uruguai e Costa Rica no grupo de fecundidade ultrabaxa da América Latina. O estudo revela que, entre os que não desejam ter filhos, 57,3% afirmam que a paternidade simplesmente não faz parte do seu projeto de vida. Um em cada quatro menciona o contexto ambiental, social ou político como motivo. Ainda assim, a vida familiar permanece uma fonte central de satisfação para a maioria, e o relatório do UNFPA sublinha que a alegria e a felicidade que as crianças trazem continuam a ser a razão mais citada para querer ser pai ou mãe.

A imagem que fica é a de um fio partido entre gerações. Abigail, a mãe de Marina, cresceu num tempo em que a realização pessoal passava quase inevitavelmente pela maternidade. Hoje, a filha carrega um mapa diferente, onde o afeto não se mede pelo número de netos. O que os dados mostram, de Buenos Aires a Roma, é que a decisão de não ter filhos raramente é um ato de egoísmo ou de desamor. É, antes, o reflexo de uma equação complexa que mistura carteiras vazias, corpos que envelhecem, sistemas de saúde que não chegam e a lenta construção de um novo sentido para a palavra “realização”.

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The article uses a survey from a private university to present the decline in parenthood as a voluntary, value-driven shift, downplaying economic or structural factors.

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The article omits the economic constraints highlighted by the UN survey, such as financial insecurity and unstable employment, which are central to the African bloc's framing.

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The article universalizes the UN survey's findings to counter a common narrative, using authoritative data to shift blame from cultural values to economic structures.

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The article omits the medical infertility projections from the Southeast Asian bloc, which focus on age-related biological decline rather than economic factors.

PragmatismoCeticismo
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Global infertility will rise due to delayed motherhood, an inevitable biological fact.

Mecanismonaturalizzazione

The article presents a Lancet study as an objective scientific projection, using numbers to depoliticize the issue and frame it as a natural consequence of age, ignoring social or economic factors.

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